re.verb

cultura, crítica e tudo o mais

Cada um com seu filme

A experiência de se assistir a um filme é sempre algo muito particular. A mesma obra causa, em cada espectador, reações distintas e, inevitavelmente, as cenas e situações retratadas causam maior ou menor impacto na medida em que remetem a vivências daquela pessoa em especial.

Cada filme, portanto, gera uma lembrança única naquele a que o assiste. O designer e fotógrafo sueco Viktor Hertz levou adiante a idéia de retratar sua percepção de certas obras cinematográficas e criou, em preto e branco, pôsteres minimalistas e espertíssimos com alguns símbolos marcantes dessas obras.

Sintetizando o que importa de cada filme melhor do que muita resenha por aí…

(Gostou? Relembre os pôsteres geniais de Vahram Muratyan, sobre símbolos de Paris e Nova Iorque que mostramos outro dia aqui no re.verb).

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A graça de se ser comum

Quantas histórias de amor perfeitas você, de fato, já viu? Daquelas em que um mocinho (sempre lindíssimo) encontra uma mocinha (também uma beldade, claro) e, apesar de alguns pequenos percalços, acaba a conquistando para o resto de suas vidas?

Hollywood – e novelas – nos fazem crer que encontros como esses acontecem a cada esquina. Mas, no dia a dia, quando se fala em pessoas normais, que têm rotinas, chefes chatos, contas a pagar e quilinhos a mais, isso existe? Nunca vi.

A Minha Versão do Amor (Barney’s Version) não te faz suspirar, muito menos se sentir como se a perfeição de um mundo cor de rosa fosse feita para qualquer um, menos você.

É a história de um grande amor – porque, sim, eles acontecem – na vida de alguém banal, medíocre; um ser humano cheio de vícios, defeitos e idiossincrasias.

Barney Panofsky (Paul Giamatti) é um sujeito feioso, nada brilhante, que, longe de ter uma carreira expoente ou uma família convencional (basta dizer que seu pai é Dustin Hoffman – impagável), enche a cara pelo prazer de ficar bêbado e fuma charuto pelo prazer de fumar. Barney faz besteira, tem amigos bagunceiros e vai empurrando a vida com a barriga.

Ele até se aventura algumas vezes naquilo que acredita ser amor – i.e. casamento – mas, em um jogo de tentativa e erro, enquanto vê o tempo passar, sente que lhe falta algo; algo que ainda não encontrou.

Encontra, enfim, quando menos espera: em um de seus casamento – e não é a noiva…

Irreal? Não sei. Histórias mirabolantes existem aos montes por aí: na vida de pessoas normais, mulheres estonteantes podem, sim, se apaixonar por sujeitos desengonçados – por que não? –; há, também, espaço para loucuras românticas e histórias improváveis; mas, ainda bem, tudo isso é permeado por horas mundanas, dias em que nada de especial acontece, arrependimentos e criancices.

É justamente aí que está a graça – na vida e no filme. Porque gente real não é de plástico; amores reais não são assépticos.

Cada um tem sua versão do amor. Estas são, a um só tempo, feias e lindas; sujas e sublimes; deliciosamente medíocres e humanas.

(A Minha Versão do AmorBarney’s Version, de Richard J. Lewis)

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O Nosso Alta Fidelidade

Nesses bons anos que leio resenhas e críticas, cansei de ver filmes sendo taxados de qualquer coisa como “despretensioso, no melhor sentido da palavra”. Diretores renomadíssimos, orçamentos milionários, locações exóticas: tudo rendia produções despretensiosas, deforma que eu nunca me convenci do poder elogioso real dessa palavra, não via credibilidade nenhuma nisso. Afinal, de onde vem tanta falta de pretensão e o que há de bom nisso?

Minha pergunta começou a ser respondida por Apenas o Fim (Brasil, 2008) e pretensiosa missão de retratar uma geração que raramente se vê nos filmes, na tv ou no teatro. O que foi preciso para isso? Um diretor estreante, sua própria faculdade e os amigos do curso de cinema e uma história banal, de um relacionamento que eu ou você poderíamos ter vivido. Encontramos aqui o provável trunfo de Matheus Souza: fazer cinema no Brasil passando longe da pobreza, da violência e da “cultura genuinamente popular” (seja lá o que isso quer dizer) pra ousar falar apenas de uma relação entre jovens universitários.

A profunda identificação do espectador com a história de Antônio e sua até então namorada, que está prestes a viajar sem destino claro nem perspectiva de volta, não deriva apenas da universal dor de amor. O que vi no cinema foi um grito, ou melhor, um post num fórum de discussão on-line sobre uma geração. Se você tem mais de 25 anos ou menos de 18, talvez não valha a pena continuar essa leitura. Estamos adentrando um terreno árido para quem não brincou com Tamagochi, ouviu Britney Spears ou perdeu tardes assistindo Pokemon. Se você nunca teve um Ranger preferido, insisto, não perca seu tempo.

Se alguma das referências supracitadas faz algum sentido para você, o sucesso é quase garantido. Não acho exagero comparar Matheus Souza a uma de suas claras influências, Nick Hornby. Antônio, um típico nerd de camisa listrada e óculos de avô, chegam a se irritar com Ela (a namorada que não tem nome) e diz “será que você não consegue ficar 10 minutos sem citar um filme, ou música ou livro?”. Mas dele, ouvimos uma das melhores “piadinhas cult” do filme: “Acho Transformers melhor que todos os filmes do Godard.”

A quantidade de referências só poderia vir de um estudante que resolveu aprender fazendo, como Matheus Souza. E como esse processo demanda tentativa e erro, ele erra ao exagerar nas referências metalinguísticas, que soam premeditadas e pouco naturais, destoando da naturalidade que premeia a atuação de Gregório Duvivier e Erika Mader tanto nas memórias em preto e branco das conversas na cama, quanto nas longas tomadas em que a câmera segue o casal pelo campus da PUC-Rio em sua última discussão de relação.

Tanta leveza quase esconde o verdadeiro motivo daquela conversa. Ela vai embora, e ele vai ficar entregue a uma melancolia embalada por Los Hermanos. Assim como eles, nós não saberemos o que a levou a ir embora, nem se ela de fato foi. Mas o que importa, como o que Ela diz, é o que já passou os momentos pra lembrar. Não só os momentos deles, mas os nossos, que virão à cabeça sem remédio e serão capazes até de arrancar algumas lágrimas frente à tamanha identificação.

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Itápolis

Já tinha ouvido falar em Itápolis? Pois é, eu já. Durante minha infância toda, passei as férias nessa cidade.

Muita laranja, muito calor e muitos italianos.

Hoje, Itápolis é mais conhecida como a cidade do Oeste Futebol Clube, o time que chegou às quartas de final do campeonato paulista deste ano – pena que contra o Corinthians

Que o futebol é assunto de suma importância para grande parte dos brasileiros, não é novidade. Pensar o futebol como trampolim para o desenvolvimento de uma cidade, contudo, não é algo trivial.

Itápolis é uma cidade situada a aproximadamente 360 quilômetros da capital paulista. Perto de Araraquara e Ribeirão Preto, é um pedacinho da Itália – daí o nome – fincada em solo de terra roxa, em uma das regiões mais férteis do Estado de São Paulo.

Em 2011, Itápolis não foi a cidade sede de um time que chegou às semifinais do campeonato estadual mais importante do País. Mas, sendo a sede de um time que, em pleno dia de São Jorge, jogou uma ótima partida decisiva contra para um dos melhores times do Brasil (basta dizer que o Timão tomou um sufoco em pleno Pacaembu lotado, com direito a duas bolas salvas pela zaga em cima da linha e tudo o mais) e tendo tido seu nome repetido à exaustão em rede nacional, oxalá passe a ser mais respeitada e observada. Os itapolitanos e seu Cristo Redentor esperam de braços abertos.

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Melhor do que chocolate

De acordo com a tradição cristã, a Páscoa é a celebração do ressurgimento, da ressurreição. Para os chocólatras, este é o período mais doce do ano. Para todos os brasileiros, contudo – e especialmente neste ano, quando esta data coincide com outro feriado – Páscoa é sinônimo de descanso em um merecido feriadão.

Nada melhor, portanto, do que celebrar à moda re.verb, com uma playlist bacanuda, repleta de alguns dos melhores sons (re)surgidos nos últimos tempos – ou de bandas não tão novas assim, mas que marcaram presença neste ano também.

Pode colocar este presentinho na conta do coelhinho da Páscoa…

Tudo que Você Quiser”, Marcelo Camelo – para começar, uma das melhores músicas de um dos melhores discos do ano até então (“Toque Dela”) – lançado por um artista que muitos deram por terminado… tudo a ver com o clima fênix da Páscoa. Quer mais? (“Tudo que você quiser, tempo de recomeçar…”).

Lovesong”, Adele – afim de dar conta na fissura por doce? Adele é açucarada até dizer chega. Seu álbum mais recente, 21, é uma prova inquestionável. Esta faixa em especial é um arremedo de bossinha; fofa como um orelhudo coelhinho (“Whenever I’m alone with you, you make me feel like I’m home again…”).

Down by the water”, The Drums – quer mais açúcar? Esta baladinha do The Drums é amorosa e melosa – na medida certa (“If you fall asleep down by the water, baby I’ll carry you all the way home”).

Taken for a Fool”, The Strokes – neste ano, quer banda mais apropriada para se falar em renascimento do que Strokes? Esta faixa é a prova de que o grupo ainda sabe manter a velha – e ótima – forma. Bela pedida para quem vai – mas não queria – passar o feriado sozinho (“And I don’t need anyone with me right now. Monday, Tuesday is my weekend. You get taken for a fool all the time, I don’t know why”). 

Sorrow”, The National – chocolate é o melhor amigo dos corações partidos. The National é a banda que canta mais deliciosamente a melancolia; combinação perfeita. (“It’s only about half a heart alone, on the water, cover me in rag and bones, sympathy. Cause I don’t wanna get over you…”).

Summer mood”, Best Coast – Feriado te lembra férias, que te lembra verão? Deu saudades? Aproveite que ainda está quente e aproveite o calorzinho do sol que persiste… (“there’s something about the Summer that makes me moody…”).

Youth Knows no Pain”, Lykke Li – Uma ode a todos os jovens que querem curtir a vida neste feriado (“Come together and join the parade and get back walk on lost in the trade. With the plants and the shimmering beats, with the wind in my hair, you’re free”).

Wetsuit”, The Vaccines – receita para aproveitar o feriadão: “Put a wetsuit on, come on, come on; grow your hair out long, come on, come on; put a t-shirt on… Do me wrong, do me wrong, do me wrong”.

Feliz Páscoa!

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O que você esperava?

Fazer aniversário causa diferentes reações nas pessoas: algumas se deprimem, outras caem de cabeça nas comemorações e só percebem que tem x+1 anos quando a ressaca passa, mas, seja como for, em momentos como estes, é difícil não se pegar pensando – ao menos por alguns instantes – na passagem do tempo.

Não, não tenho a menor pretensão de falar sobre Proust e sua busca do tempo perdido, mas uma música em especial, chamada “Wetsuit”, que faz parte de um álbum bacanérrimo lançado mês passado, ficou martelando na minha cabeça nos últimos dias. Ela começa assim:

If at somepoint we all succumb, for goodness sake let us be young,

Because time gets harder to outrun and I’m nobody, I’m not done

With a cool cool breeze and dirty knees, I rest on childhood memories

We all got old at breakneck speed

Slow it down, go easy on me…

A banda em questão é uma das mais hypadas do indie rock atual, considerada o “novo Strokes” por alguns e nome confirmado para o Planeta Terra deste ano: The Vaccines.

Esses quatro londrinos que compõem a formação atual da banda surgiram ainda no ano passado e, como uma avalanche, rapidamente arrastaram multidões e arrebataram fãs e críticos com seu bom e velho rock (há vocais, guitarra, baixo e bateria; nada de barulhinhos esquisitos ou pirotecnias eletrônicas), letras pouco elaboradas, mas tremendamente verdadeiras e, principalmente, uma urgência para se fazer ouvido pelo mundo como há pouco se via – de fato, nesse ponto lembram o Strokes (principalmente na sonoridade – da bateria especialmente – de faixas como “If you Wanna” e “Wolf Pack”).

É como se, com toda sua pulsão juvenil, a única forma de extravasar angústias e mandar um recado ao mundo fosse com o auxílio de amplificadores. Não que os recados carreguem qualquer mensagem revolucionária, mas a forma como são bradados transmitem uma sinceridade difícil de se questionar. The Vaccines pode ser taxado de muitas coisas (pouco inovador, meio tosco, juvenil, quase pop…) mas, definitivamente, não soa fake.

Tamanha a comoção causada pela banda, seu álbum de estréia, lançado quase concomitantemente com Angles, do Strokes, traz já no título uma piadinha interna, uma provocaçãozinha que, de tão petulante fica engraçada: “What Did You Expect from The Vaccines?” – o subtítulo poderia perfeitamente ser: “e aí, vai encarar?”

Pois bem, o que esperava desses caras e o que o disco trouxe? Se alguém (?) esperava algo épico, a decepção deve ter sido grande… porém, se as expectativas eram no sentido de encontrar a mais nova “melhor banda de todos os tempos da última semana”, aí sim; porque “What Did You Expect…” é legal pra caramba.

Por exemplo: uma das faixas mais conhecidas – talvez por ser a mais atrevidinha – se chama “Post Break-up Sex” e fala justamente disso: os conflitos “existenciais” de quem quer esquecer o ex e, para tanto, se ajuda de outra pessoa (“Post break-up sex that helps you forget your ex/ What did you expect from post break up sex?”). Honesto, simples e sem qualquer presunção de profundidade – ainda bem…

E, claro, como não poderia faltar em uma banda surgida atualmente, olha lá o surf rock dos anos sessenta pintando de novo: em “Norgaard”, a faixa de menos de dois minutos que fala sobre a menina que tem apenas 17 anos – e que, provavelmente, ainda não está pronta – tem uma batida nitidamente influenciada por essa onda.

A mesma influência, ainda que presente essencialmente no título, está também na música de que falei acima, “Wetsuit” (a melhor do disco), e também na ótima “Family Friend” (“You wanna get young but you’re just getting older and you had a fun summer but it’s suddenly colder/ If you want a bit of love put your head on my shoulder, It’s cool”), que são desabafos a um só tempo raivosos e melancólicos – daqueles escritos em uma tacada só – que se prestam como uma tentativa de exorcizar aquela sensação perturbadora de que o tempo está passando rápido demais…

The Vaccines é, enfim, uma banda que emana juventude. Nada melhor para acalmar a aquele incômodo que perturba os aniversariantes – só eles?

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It’s your party…

Perdoem a “invasão” (apesar de ser citada como co-autora deste blog, vocês já perceberam que a minha presença por aqui é quase nula, né?), mas precisava fazer um post-homenagem porque hoje é um dia muito especial!

Hoje é o aniversário da estrela deste blog, Florinha querida!!! Não podíamos deixar esta data passar em branco, portanto Fló, aceite esta humilde homenagem e, queridos leitores e amigos, show your love nos comentários!

E como um dos assuntos preferidos deste blog (e desta que vos fala) é certamente a música, deixo aqui a minha trilha sonora preferida para aniversários (versão original, com dancinha pra todo mundo aprender):

Beijos!

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O toque de Camelo

É o fim dos Los Hermanos e o início da carreira solo de Marcelo Camelo.

Ok, isso é notícia velha, mas, com o lançamento de “Toque Dela”, segundo disco do artista, volta a ser mais atual do que nunca.

Primeiro, porque, se o disco da estréia solo do cantor, “Sou” (ou “Nós”, dependendo do ponto de vista…), era um grito de afirmação, uma carta de alforria do Los Hermanos – com uma certa vontade exagerada de se mostrar complexo e experimental – o novo é mais fluido e simples; soa mais verdadeiro. Justamente por isso, consolida uma sonoridade própria de Camelo, que é a continuidade de “Sou”, mas soa mais natural.

Alguns temas – e palavras – são recorrentes desde os primórdios de sua carreira musical: a “morena”, a “clareira”, a “solidão”, mas agora, ao se levar menos a sério, Camelo encontra um caminho ainda mais interessante.

Os instrumentos que compõem as belas melodias estão mais definidos, menos embaralhados (desta vez, foram gravados em canais separados – e não ao vivo como no disco anterior), e, tamanha sua riqueza, são o grande trunfo do álbum; sejam os instrumentos de sopro e toda a fauna sonora do Hurtmold (que participa da maioria das faixas), seja a já famosa – e deliciosa – sanfonazinha de Marcelo Jeneci. Os melhores exemplos de como essa mistura instrumental funcionou? As faixas “Tudo que Você Quiser” (a mais bela do disco) e “Vermelho” (muito boa também).

Por outro lado, as letras permanecem sinceras – escancaradamente sentimentais – mas estão menos rebuscadas (é deliciosa esta frase de “Acostumar”: “parece brincadeira, mas eu sei que a gente faz um monte de besteira por saber que é bom demais”); continuam intrinsecamente líricas, mas estão mais alegres – e completamente apaixonadas.

Não que seja surpresa que Camelo é, acima de tudo, um poeta; um romântico irremediável – em “Vermelho”, diz: “trago nestes pés o vento pra te carregar daqui, mas você sorri desse jeito, e eu que já perdi a hora e o lugar… aceito”.

É de se notar também que as faixas são bem distintas entre si: há algo quase baiano – à la Caymmi – em “Pra te Acalmar”; para não falar que nada evoca Los Hermanos, “Pretinha” e “Ôô” (“tudo que eu fizer vai ser pra ver aos olhos dela, vai sobrar carinho se faltar estrada ou carnaval”) são mais pop; “Três dias” (única cuja autoria não é de Camelo) é quase uma canção de ninar cult e por aí vai.

Todas essas cores, contudo, não conferem ao disco o tom de colcha de retalhos, mas o contrário: ele é um todo coeso. O motivo? Ele é a cara de Marcelo Camelo; ou melhor, é todas as suas facetas.

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The Show

Sabe quando o céu está bem nublado, mas, por alguns instantes, raios de sol escapam das nuvens mais nítidos do que nunca, como feixes de luz de holofotes? Sempre achei isso uma coisa meio divina.

E foram luzes como estas que, em meio à escuridão, iluminaram Matt Berninger na primeira música do show de ontem, “Runaway“. Um bom presságio? Talvez.

Falar que o show do The National foi um dos melhores shows a que já fui na vida diz pouco a quem não estava lá. Porém, tenho certeza, aos que estiveram, diz tudo.

Certa vez, ouvi que um crítico descobriu o sentido da palavra “sofisticado” ao ver a apresentação de certo jazzista. Pois bem, ele não viu The National.

Matt Berninger, tímido de tudo, é capaz de cativar a platéia sem fazer nenhuma gracinha; sem gestos mirabolantes, ou atitude rock’n'roll. Ele, impecavelmente bem vestido, inteiro de alfaiataria preta, simplesmente empunha o microfone e canta maravilhosamente bem letras maravilhosamente bem escritas – que beiram a poesia. E isso é o bastante.

É incrível, aliás, como a banda consegue transformar uma apresentação de rock em algo tão intimista. Mal se ouviam conversas na platéia. É como se cada um ali sentisse que Matt, os guitarristas e irmãos Aaron e Bryce Dessner, e o resto da entrosadíssima banda estivessem na sala de sua própria casa, cantando só para ele.

No repertório, faixas dos três últimos álbuns, com destaque para mais recente – e excelente – High Violet (2010). Teve também sucessos dos discos anteriores, como “Mistaken for Strangers“, “Apartment Story” e “Fake Empire“, do também ótimo Boxer (de 2007); “Secret Meeting” e “Abel”, de Alligator (de 2005)

Quando, após quase duas horas, o show parecia ter terminado e todos já se davam por satisfeitos, veio o bis de um jeito que ninguém esperava.

Primeiro, Matt resolveu se soltar. Fez piadinhas (“vocês são muito mais barulhentos que os americanos. Estamos nos sentindo o Kings of Leon”), desceu junto à galera, foi carinhosamente abraçado – sem parar de cantar nenhum verso de “Mr. November”, diga-se de passagem – voltou ao palco, cantou baladas e porradas e, depois de uma versão apoteótica de “Terrible Love“, seguida de “About Today”, deu sua cartada final: pediu, por favor, silêncio da platéia. Se encaminhou, junto à sua excelente banda, à beira do palco. Deixou o microfone de lado, enquanto os outros músicos desplugavam seus instrumentos. De repente, acompanhado pela banda a seco, com tudo desligado, começou a cantar à capela “Vanderlyle Crybaby Geeks“. Na platéia, duvido que tenha sobrado um só fio de cabelo sem se arrepiar.

Se o início do show já anunciava um quê de magia, o final foi o milagre.

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The National

O prazer, nesta terça-feira, vem em dobro. Primeiro, porque a melhor banda de rock alternativo contemporânea (sim, a melhor) se apresentará em São Paulo. Segundo, porque, para falar sobre ela, temos a honra de publicar um belo post de um querido e talentoso convidado, Gabriel Garcia (do ótimo Piper Cub Club), feito especialmente para o re.verb.

Muitíssimo obrigada, Garcia… mesmo. E volte sempre!

“Você chegou numa hora da vida que não dá mais pra fugir de certas coisas. Existem pessoas que dependem de você. Erros foram cometidos, os arrependimentos se acumulam como a pilha dos pratos pra lavar na cozinha. Não há mais como voltar atrás. Mas você tem que seguir em frente. Porque, no fim das contas, as coisas sempre voltam ao seu lugar.

Matt Berninger poderia ser eu, você ou seu vizinho. Aliás, qualquer integrante da banda dele, o The National, poderia ganhar uma eleição do “sujeito mais comum do mundo”. Nenhum deles é famoso, se envolveu com drogas, namora a Kate Moss ou xingou o ultimo disco do Radiohead.

A banda tem uma história muito comum também. Banda batalhadora, de bons discos e turnês com centenas de datas, faz sucesso depois de anos de carreira. O som é o rock alternativo americano básico, cheio de reverência à Bruce Springsteen e ao R.E.M. As letras são sobre pessoas comuns convivendo com problemas comuns, com uma honestidade e (por que não) crueldade difícil de encontrar na sua bandinha preferida. Não é fácil de ouvir.

Por isso mesmo, quem gosta do The National gosta de verdade. Matt Berninger canta, com sua voz de barítono, aquilo que você iria cantar se tivesse uma banda (a não ser que semana passada você tenha tido duas overdoses de cocaína ou esteja cansado da vida de estrela da música). Letras sobre dívidas, filhos, bebida, problemas no relacionamento. É chato, eu sei. Mas é sua vida.

Os discos da banda são aquilo que chamam em inglês de “a grower”. Não consigo imaginar nenhuma expressão em português equivalente, pois é isso que a música do The National faz: eles crescem com o tempo. É impossível gostar deles na primeira ouvida. Não existe nenhum apelo pop, ou alguma música que te ganha logo de cara. Eles te vencem pelos detalhes.

E há cinco discos eles vêm vencendo. Desde “The National”, de 2002, até “High Violet”, de 2010, a qualidade dos discos só melhora. E os shows são ainda melhores. A banda, absolutamente entrosada, é a moldura perfeita para o fantástico vocalista que é Matt Berninger, que entra em estado de graça durante as apresentações, sempre com seu copo de vinho branco como companhia (segundo Berninger, é o único jeito de ele encarar a platéia).

Felizmente, nesta semana o Brasil poderá acompanhar a banda nessa volta olímpica de duzentas datas que vem sendo a turnê de High Violet. Nada mais merecido para uma banda que finalmente venceu depois de anos perdendo.

Em “Runaway“, do último disco da banda, Berninger canta  “We don’t bleed when we don’t fight / Go ahead, go ahead / Throw your arms in the air tonight”. Nessa vida é preciso sangrar muito pra seguir em frente. O importante é você se jogar, ir pra cima. Você pode até cair, mas pelo menos você lutou. Só assim a vida vale a pena.

É isso que o The National vem nos ensinar aqui em São Paulo.”

(por Gabriel Garcia)

Sem mais.

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