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Habemus Metus

E quem nunca se sentiu como este papa, interpretado de forma comovente por Michel Piccoli, na surpreendente produção franco-italiana “Habemus Papam?”, de Nanni Moretti.

Cidade do Vaticano. Após a morte do carismático papa João Paulo II, 108 cardeais designados para eleger o novo pontífice rumam para a Capela Sistina, para dar início a um dos mais misteriosos rituais do catolicismo: o conclave, cerimônia realizada a sete chaves e que culmina, obrigatoriamente, na nomeação de um sucessor para o posto máximo de liderança da Igreja.

Após sucessivos jatos de fumaça preta – indicando que a escolha continua incerta – e muitas discussões entre os cardeais, o telespectador presencia uma votação que, apesar de mexer com a vaidade de 108 seres humanos, parece representar um grande fardo aos potenciais candidatos. As preces silenciosas de cada indicado clamam pela escolha de um papa que não seja ele próprio, e pela isenção daquela responsabilidade que, pensam, está acima de suas vocações e abaixo de seus anseios. Os cardeais escolhem, então, o idoso francês Melville para dar início ao novo pontificado que, assim como os demais, não se sentia a altura daquela missão.

Como, afinal, aquele que deveria honrar os valores de humildade e simplicidade, poderia se convencer, por uma eleição, de que seria o melhor qualificado para representar o elo entre Deus e seu povo? Mais ainda, liderar este povo pelo caminho de Deus?

Traçando um paralelo com a nossa vida cotidiana, quem não se sentiu, por vezes, desafiado por uma nova missão e encheu o peito para encará-la, usando uma coragem que nem sequer sonhava deter? Quem nunca, nem por um tempinho, pensou em recuar ou sentiu-se incapaz de suportar algum fardo? Ou, ainda, quem sofreu a angústia de não ter recuado enquanto era tempo de resguardar sua própria paz?

Após a eleição, Melville sente o peso de sua responsabilidade e, ao se aproximar da varanda da Basilica di San Pietro, diante de milhões de fiéis, onde o mais velho dos cardeais leria o texto (habemus papam) anunciando o novo pontífice e marcando o início de um novo papado, nosso protagonista, sentado e acuado como se fosse a última presa do mundo, leva as mãos à cabeça, desmontado diante de sua obrigação. Então, grita. Mas grita de uma forma tão comovente e desesperadora, que, por um momento, esquecemos que estamos diante de um cardeal idoso e sereno, que, como faz crer a personagem, dedicou a maior parte de sua vida à sua vocação e à devoção a Deus.

É neste contexto que os 107 cardeais eleitores, aguardando esperançosos a recuperação do papa e preocupados com a angústia dos fiéis diante da indefinição do papado, designam um psicanalista para decifrar a crise de pânico que assola o Vaticano. No meio tempo, os cardeais se entregam a jogos infantis para correr com as horas; então, percebemos que há naqueles homens sentimentos comuns a todos os demais, como inveja, competitividade, preguiça e noites mal dormidas – carregadas de ansiolíticos.

Não obstante, apesar de brilhante em vários aspectos, principalmente dos pontos de vista dramático e ideológico, são visíveis algumas inconsistências no roteiro e na condução das personagens secundárias. O psicólogo (interpretado curiosamente pelo diretor Nanni Moretti) ao ser colocado de lado na missão de analisar o papa, passa a organizar um torneio de vôlei entre os cardeais. Ocorre que, apesar de proporcionar seqüências bem humoradas e que trazem leveza ao drama do papa perdido, o torneio não tem qualquer relevância para o longa, e deixa evidente a perda de rumo da personagem do psiquiatra, que tinha grande potencial no início.

Por outro lado, o que poderia ser um temor passageiro de um ancião confuso, toma proporções patológicas impensáveis. O papa foge, vagando pelas ruas de Roma e, distante do Vaticano e de seus companheiros de batina, acaba buscando o sentido de sua própria vida em meio à sua confusão mental. É nesta sequência de cenas que o brilhantismo de Piccoli consegue tocar o espectador de forma ainda mais profunda, ao dar vida a uma personagem tão humana e frágil que emociona por sua complexidade.

Tendo em mente um cardeal, que chegou ao estágio máximo de sua vida religiosa, mas está vagando absorto em pensamentos pelas ruas da capital italiana, respondamos a seguinte pergunta: quem de nós, de tempos em tempos, não precisa mudar de rumo? Sair de cena, vagando pelas ruas da sua própria vida, encontrando o seu mundo em outro lugar?

Não vou contar aqui o final do filme, esperando que a sua curiosidade o carregue pelas reflexões que “Habemus Papam pode proporcionar.

É evidente que muito se espera de um papa, como líder religioso e como ser humano. Da mesma forma, mas talvez em menor proporção, muito é esperado de nós também, em nossos trabalhos, em nossos relacionamentos, em nossos estudos. Grande parte deste “muito” conseguimos corresponder diariamente, com dedicação, com esforço e abrindo mão de alguns de nossos desejos.

Mas e aquilo ao que não conseguimos corresponder? Melville pode ser considerado um fraco por resistir à missão que lhe foi confiada, mas não há, de fato, coragem naquele coração que assumiu sua própria fraqueza e seguiu o rumo das suas próprias crenças?

(Habemus Papam, de Nanni Moretti, 2011)

 


 
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Canto de sereia

Em meio a luzes que mais pareciam reflexos d’água, ela surgiu linda: vestido de paetês, corpo e voz de sereia. Nos pés, um par de havaianas azul e branco. Combinação inusitada, mas que funciona – talvez só nela.

Assim, repleta de misturas impensadas, é também a música de Céu: a um só tempo, sofisticada e despojada; chique e pé na areia.

Seja no modo de se vestir, ou na interpretação de suas músicas, ela pendula de um lado para o outro, sem jamais cometer excessos; é precisamente comedida.

Por tais razões, assistir a um show da cantora nunca foi, tampouco será, um convite à folia; é um exercício quase introspectivo de adoração. Porque música executada com qualidade fascina; porque lindas letras cantadas ao vivo tocam ainda mais; e porque Céu é tão bela e delicada que encanta.

Não foi diferente o show de ontem, ocasião do lançamento do excelente álbum Caravana Sereia Bloom (de que já falamos – muito bem – aqui), no Sesc Vila Mariana. Como sempre, foi um show sem grandes pirotecnias, mas tecnicamente perfeito; bom, mas contido. Poucas digressões entre as faixas, pouco improviso, mas com uma banda excelente (um baterista, um guitarrista, um baixista e um DJ), som límpido e potente, e uma cantora que compensa sua timidez com a qualidade de sua música – e de sua voz.

Além de executarem quase todas as faixas do novo disco, trouxeram também sucessos antigos, como “Cangote”, “Malemolência”, “Lenda” e “Rainha” (as duas últimas, no bis), bem como uma deliciosa versão de “Me importas tú”, do Trio Los Panchos.

Ainda mais emocionante – e minimalista – foi a faixa “Palhaço”, executada em voz e violão por filha e pai (Céu e Edgard Poças).

Por outro lado, a ótima “Streets Bloom”, de Lucas Santtana, contou com uma performance robusta – quase rock’n’roll – de Céu, e com uma bela projeção de takes “estradeiros” ao fundo.

Das mais animadas, ainda mais ao vivo, “You Won’t Regret It” só faz reforçar a veia reggae da moça – sempre presente em seus trabalhos, desde sua gostosa versão de “Concrete Jungle”.

Por fim, para terminar, minha favorita do álbum: “Chegar em Mim”, de Jorge Du Peixe – faixa esta que, conforme confessou Céu, já vinha namorando desde os tempos de Vagarosa.

Foto de Ariel Martini

E foi assim que, para um público que lotou a casa e se protegeu do toró que caía do céu, a cantora de mesmo nome – a mais interessante da nova geração brasileira – lançou um dos melhores discos do ano, até então.

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Bom pra cachorro

Estranhamente, às vezes nos esquecemos do óbvio: de como um fim de semana com amigos relaxa, do quanto comidas gostosas alimentam a alma, de que beijar muito na boca faz bem. Cada vez mais, esquecemo-nos também do quanto a boa música pressupõe letras e músicas feitas com carinho.

Acostumamo-nos a deixar pra lá a reverência à qualidade, a ode à canção, em prol de ritmos dançantes, refrões pegajosos e letras banais – particularmente, tenho muita preguiça das discussões que argumentam a favor do fim da canção; a canção não acabou, ela só é cada vez mais rara… mas isso não vem ao caso.

De fato, muitos artistas subestimam o ouvinte, pregando que o popular é incompatível com complexidade de sons e letras; que temas contemporâneos se casam apenas com superficialidade. (Uma pena.)

Por essas e outras razões, ouvir 5 a Seco (finalmente em CD, ao vivo, no Auditório do Ibirapuera) não apenas é um alívio, como uma esperança. Garotos de vinte e poucos anos, em plena era digital, escolhem simplesmente resgatar a beleza; não andam pelo caminho mais fácil, mas por aquele em que acreditam: música boa independe de idade, mas pressupõe requinte no som e qualidade.

Poucos conseguem amarrar com tamanha precisão temas jovens, como um amor nascido da balada, com sonoridade sofisticada – “tá tudo bem, finjo que nem sei o seu nome, e nem quero saber, mas se pensei a semana inteira em te rever deve ser um acaso qualquer (…) tô querendo te conhecer, te vi na balada lá nos cafundó, tô querendo mais de você”, como em “Tatame” –; ou ainda música boa com expressões mundanas: “yes, we can! Suave na nave, sem vacilo nem vintém”, como em “Ou Não”. (Nesta última, inclusive, vemos um exemplo de seu diálogo com raízes da música brasileira “das antigas”, com a participação de Lenine nos vocais).

Aliás, se são credenciais de sucesso que farão você escutar esses meninos, ressalta-se que há também outras participações de peso, como Chico César (em “No Dia em que Você Chegou”) e Maria Gadú (“Em Paz”).

Posso até ser suspeita, já que acompanho e admiro esses garotos desde sempre – desde de os tempos do maravilhoso hit do meu querido Tó Brandileone, “Pra Você dar o Nome”:

Deixa pra lá, que de nada adianta esse papo de agora não dá, que eu te quero é agora e não posso nem vou te esperar, que esse lance de um tempo nunca funcionou pra nos dois.

Sempre que der, mande um sinal de vida de onde estiver desta vez, qualquer coisa que faça eu pensar que você está bem, ou deitada nos braços e um outro qualquer, que é melhor…

Do que sofrer de saudade de mim como tô de você, pode crer, que essa dor eu não quero pra ninguém no mundo, imagina só pra você

Quero é te ver dando volta no mundo indo atrás de você, sabe o quê, rezando pra um dia você se encontrar e perceber que o que falta em você sou eu

mas meu compromisso com o reverberar dos bons conteúdos não me permitiria aclamar algo que não achasse digno de aplausos. E, não se engane, 5 a Seco merece mais do que uma salva de palmas; é, na minha opinião, o que de melhor há na música brasileira atual; simples assim.

A quem duvide, desafio a escutar e baixar (de grátis) o álbum, aqui. Garanto que vale a pena – e, para aqueles que já os conhecem, re-transmito a notícia de que, finalmente, é chegada a hora de carregar os meninos em nossos respectivos iPods.

Afinal, musica boa é aquela que, de tão boa, te faz dar “Gargalhadas”, ou, melhor ainda, ficar “Feliz Pra Cachorro”:

desde que te vi, que o chão não tem fundo, que o céu não tem forro, cantarolo e morro de rir (…)

Pensa num cara que anda contente pra burro, mas pensa um burro contente que nem um sagüi, desde que te vi (…)

Todo contente que nem são os gols de chaleira, a zaga inteira batida e o goleiro no chão, desde que te vi, não tem enjoeira, nem segunda-feira, ou canseira no meu coração.

Tão raro de se ver, param pra dizer para eu ser feliz pra lá, peraí, o que é que há, quero ver quem vai me impedir de sorrir do Pari até o Pará”.

5 a Seco faz isso; te satisfaz com boa música e te faz sorrir. Precisa mais?

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