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Certa educação

em outubro 17, 2010

Educação, filme de Long Scherfig, roteiro de Nick Hornby, já não se trata de uma novidade – foi eleito melhor filme pelo júri popular no Festival de Sundance 2009 e indicado ao Oscar de melhor filme também naquele ano – entretanto, carrega um frescor capaz de durar anos e, mais, trata sobre um tema atemporal: o aprendizado diante da vida.

É uma pena que o título traduzido para o português retire parte da força do original, “An Education”, na medida em que suprime justamente o essencial, o artigo indefinido “an” – “uma” – e, assim, perde ponto central do filme, que é a possibilidade de escolha entre uma certa educação, em detrimento de outra. Isso porque Jenny (interpretada lindamente por Carey Mulligan) tem a oportunidade de escolher – e oscilar – entre duas formas de aprendizado da vida: o ensino formal – a esperança por uma vaga em Oxford – e a “escola da vida”, descortinada aos seus olhos por seu primeiro amor, David (Peter Sarsgaard).

David, o que de mais interessante aconteceu nos 16 anos da vida de Jenny, é um homem experiente e sedutor que, aparentemente, personifica todas as grandes paixões da garota: boa música, artes, sofisticação e beleza. Jenny, sempre forçada a ser adulta demais, teve a sensação de poder brincar e se divertir pela primeira vez justamente ao encontrar alguém mais velho.

Encantada por uma aparente joie de vivre que suspeitava existir, mas que jamais havia presenciado, a garota se deslumbra com a aparência de uma vida leve, interessante e fácil e escolhe – com o endosso dos pais, que enxergam em David a possibilidade de uma vida que nunca tiveram – largar seus estudos para acompanhar o amante em suas aventuras – mesmo sem saber do que se tratam.

A menina então, intoxicada de paixão, cai, feito Alice, no buraco do coelho e se transporta para o País das Maravilhas, onde tudo lhe é novo e parece impecável. Descobre o amor, a boa música, roupas elegantes e Paris. Com a certeza típica de uma adolescente, Jenny sabe que aquela é a vida que sempre sonhou e que David é a melhor escola que pode ter.

Assim, passa a desprezar a outra forma de educação, tão enfadonha e sisuda. A fim de rechaçar seu passado – e as aspirações futuras que ele trazia – a garota se vê obrigada a fechar os olhos para não enxergar o óbvio. E o óbvio, como mais tarde constata, é que não há atalhos fáceis para a felicidade plena – se é que esta existe.

O roteiro de Nick Hornby, quem sabe como poucos expor uma camada mais profunda de questões corriqueiras (como paixões futebolísticas e musicais), nos conduz de maneira leve, sem ser rasa, pelo doloroso processo do despertar de uma garota de 16 anos para a vida.

Entretanto, a idade de Jenny pouco importa quando percebemos que o que está em jogo nesse filme (só nele?) é a tentativa desesperada de se desafogar da insatisfação de uma vida medíocre. E o deslumbramento, experimentado por todos, sejam jovens ou não tanto, nada mais é que a esperança de que haverá uma saída.

(Educação, de Long Scherfig, roteiro de Nick Hornby, com Carey Mulligan e Peter Sarsgaard).

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2 respostas para “Certa educação

  1. Manu disse:

    Querida!!!! adorei o blog, passarei por aqui muitas vezes, um beijo e boa sorte

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