re.verb

cultura, crítica e tudo o mais

memória seletiva

em outubro 17, 2010

BALDWIN "You lost me there"

Victor Aaron, personagem central de You Lost Me There (Ed. Riverhead Hardcover), romance de estréia de Rosecrans Baldwin, desde menino, é intrigado pelos processos de tomada de consciência – “seria o modo como penso sobre coisas, como elas acontecem em minha mente, o mesmo como Russel pensa sobre as coisas?”. Mais tarde, cientista, mostra-se obstinado a decifrar o porquê de certas memórias – e não outras – persistirem. Torna-se, então, estudioso do mal de Alzheimer, buscando encontrar formas de mapear o cérebro e, assim, criar mecanismos capazes de lutar contra a perda da memória causada pela doença.

Desde o primeiro momento, contudo, faltam-lhe respostas, saídas – “riddles abounded.

Ao ser surpreendido pela morte de sua mulher, Victor se vê embrenhado em meio aos labirintos de lembranças de sua própria mente; descobre que sua perspectiva do casamento, bem como suas lembranças, em muito se distinguiam daquelas que sua mulher, Sara, possuía.

Se, para ele, o casamento era sólido, incontroverso, para Sara tornava-se insuportável. Quando a terapeuta do casal sugeriu que ambos escrevessem cartões com as cinco principais mudanças de rumo que o casamento sofreu, Sara anotou, sem que ele soubesse, quatro – descrevendo uma espiral descendente de descontentamento que só foi freada por sua morte – enquanto Victor nada enxergou. Para ele, o casamento seguia sem percalços, linear e constante, até a morte de Sara: “seguiu em uma só direção e então parou”. 

E assim, é somente após morta sua mulher, ao encontrar tais cartões, que Victor descobre o que realmente se passava na cabeça dela. É então tomado pela angústia de tentar entender o que, de fato, ocorreu em seu casamento – e em sua vida – até então. É como se, até aquele momento, estivesse tão entretido com o estudo da mente e das memórias dos outros, que se esquecera de prestar atenção em si mesmo; pouco do que aconteceu foi registrado.

Após isso, como se tomada consciência da falibilidade de sua própria mente, Victor mostra-se cada vez mais obsessivo pelo processo de entendimento dos fluxos da memória (seja buscando a cura para o Alzheimer, seja tentando compreender o que se passou em sua vida), fica tão irremediavelmente preso às próprias lembranças – tentando decifrá-las – que sequer consegue distinguir se tais memórias seriam ou não verdadeiras. Perde-se em seu passado e agoniza no presente – só dorme depois de alguns soníferos e outras doses de bebida; tem crises de choro repentinas e inexplicáveis; e o único “relacionamento” que possui é com a tia ranzinza de sua falecida mulher, com quem faz as vezes de filho, motorista e companheiro assexuado. 

Sua impotência – em todos os aspectos, inclusive diante da dançarina burlesca com quem passa as tardes de sexta – e a incapacidade típica de alguém que pensa demais, debate-se em meio às suas idéias e, diante da vida, refuga – aspecto que faz lembrar Rímini, de O Passado de Alan Pauls – provoca no leitor um incômodo que não se resolve nem com o final do livro. Isso porque, mais do que uma narrativa em primeira pessoa, You Lost Me There se passa no interior da mente – melhor dizendo, do cérebro – do narrador. O título já anuncia: o marido se perdeu – e perdeu sua esposa – ali.

Em uma tentativa íntima, de Victor, de entender a própria consciência através do fluxo de memórias – sendo o esquecimento um meio de se explicar o processo de memorização – somos levados a enxergar a partir da perspectiva cognitiva perturbada do narrador. A narrativa, por vezes desconexa, coaduna-se com o próprio ir e vir de memórias – estas, que são a real protagonista do romance – que pipoca em meio ao enredo como lembranças que, sem explicação, surgem. (A propósito, as incessantes alusões à memória – o estudo do Alzheimer, as lembranças díspares sobre o casamento, digressões sobre o tema ao longo do texto, etc. – tornam-se um tanto cansativas. Poderiam ser mais sutis e, ainda assim, a mensagem permaneceria forte).

A sensação de incômodo, acima mencionada, que, em outras obras, não seria algo intrinsecamente ruim, neste caso vem acompanhada de certa antipatia pelo narrador. Por horas, é difícil manter a paciência diante de uma figura tão passiva. A certa altura, Victor questiona: “se duas pessoas têm as mesmas experiências, mas lembram-se delas de maneira diferente, o que isso quer dizer acerca de suas respectivas mentes?”. Na medida em que sabemos ser a mente de Victor demasiadamente covarde, é quase inevitável não imaginarmos como seria experimentar os fatos narrados a partir de outra perspectiva, uma mais interessante.

(You Lost me There, Rosecrans Baldwin, Ed. Riverhead Hardcover, 2010)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: