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E agora, Nascimento?

em outubro 19, 2010

Tropa de Elite 2 é um filme poderoso, não há como negar. Seja pela atuação espetacular de Wagner Moura; pelo tema, que instiga a platéia a tomar partido sobre algo que deveria ser prioridade na agenda política do País; ou ainda pelo fato de que, desta vez, o Jack Bauer brasileiro, o Capitão – agora Tenente-Coronel – Nascimento é uma personagem mais rica e humana: está em constante tensão frente às demais personagens (seu filho, sua ex-mulher, Fraga, Matias, etc.) e é contestado do começo ao fim.

“Tropa 2” é também melhor do que “Tropa 1”, pois tanto as personagens como o roteiro descortinam novas camadas de complexidade e nada parece tão simples como antes (se outrora o mote era “bandido bom é bandido morto”, agora sequer se sabe quem é o bandido).

Entretanto, apesar de o segundo filme da saga ser mais denso e instigante, ambos apresentam a mesma estrutura: (i) constatação de um problema; (ii) identificação de um culpado/responsável; (iii) uma possível solução.

No primeiro filme, tal estrutura se mostrava clara: o problema era violência urbana decorrente do tráfico de drogas nos morros; a culpa recairia sobre a demanda das classes mais favorecidas pelas drogas e a solução seria a atuação justiceira do BOPE.

Em Tropa 2, as respostas são um pouco menos óbvias: identifica-se um novo problema, a insuficiência do sistema de segurança pública, mas a atribuição de culpa se desdobra em dois níveis: de um aparente culpado e, em seguida, de um bode expiatório.

Em relação ao primeiro, vemo-nos surgir quando da constatação de Coronel Nascimento de que o BOPE, de fato, expulsou os traficantes de alguns morros, mas, com isso, houve a transferência do poder – e da violência – para outras mãos: as de uma banda podre da polícia militar. E as culpadas seriam essas máfias, as milícias, na medida em que criariam currais eleitorais nos morros e, através do voto da população, tornar-se-iam representantes de seus próprios interesses nos poderes Legislativo e Executivo – e, assim, responsáveis também pela manutenção da estrutura de poderes e privilégios pessoais nos morros.

Mas é justamente nesse ponto que a questão se complica. A partir do momento em que Nascimento – e sua onipresente voz em off – percebe a conexão entre polícia militar, secretaria de segurança pública – e, portanto, governo estadual – poder legislativo e milícias, o Coronel se atordoa, deixa de enxergar concretamente o problema e bota a culpa de tudo e de todos no “sistema”. Ainda, passa a não ter a menor idéia da solução.

Isso porque botar a culpa no “sistema”, sem explicitar o que se considera como tal – se são as redes de corrupção e favores costuradas entre todos os poderes; o governo atual; um determinado partido político… – é tão genérico, quanto inútil (é como, em Tropa 1, botar determinada contagem de mortos “na conta do Papa”).

As coisas pioram ainda mais quando se dá a entender que “sistema” equivale a “política” – e que política, tinta de uma conotação intrinsecamente negativa, equivale a “politicagem” (ou seja, troca de favores por votos, relações falsas baseadas em interesse, etc.).

O resultado desse raciocínio é que, diferente do primeiro filme, em Tropa 2 não há solução fácil. Não há BOPE que resolva o problema. Mais ainda, retomando a estrutura apresentada acima, tem-se que “a solução para o problema” é não encontrar solução. Tudo está tão imbricado no “sistema” que não há mais saída – se a culpa é do sistema e este é alimentado pela política, ao se pressupor que a última é intrinsecamente podre, não existirá saída enquanto existir o sistema.

A ausência de luz ao fim do túnel não é algo necessariamente ruim, afinal, se alguém souber responder a pergunta de um milhão de dólares que é “como resolver o problema da segurança pública”, que faça Tropa de Elite 3…entretanto, escancarar um problema e não alinhavar o ponto deixado em aberto pode ser bom na medida em que suscite novas discussões sobre possíveis soluções, mas traz também o risco de um certo conformismo com o fracasso. O pior aspecto do último é provocar uma sensação de que “não tem jeito, o Brasil é assim” ou, ainda,”pior do que está não fica”…aí sim é que está o problema.

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6 respostas para “E agora, Nascimento?

  1. Juliana Mello disse:

    Adorei a novidade! Já adicionei aos “favoritos”.

  2. Flora disse:

    Muuuito obrigada, Ju! Você nem imagina como sua opinião é importante…
    Espero que continue adorando, que volte sempre e que comente sobre tudo o que gostar e desgostar aqui dentro!
    Beijão

  3. Bruno Pereira disse:

    Uau! Novidades das boas! Gostei já do primeiro texto que eu li!
    Já adicionei aos meu favoritos! =)
    Parabéns

  4. Camila disse:

    SIMPLESMENTE IRADO!
    O texto, o site… tudo!
    Zi, sempre motivo de orgulho, parabéns!! Ao resto do “time” tb, óbvio!

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