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Sentindo poesia

em outubro 25, 2010

Poesia (Poetry) foi o primeiro filme da 34a Mostra  Internacional de Cinema ao qual assisti. Escrito e dirigido pelo sul-coreano Lee Chang-dong, foi eleito melhor roteiro no Festival de Cannes deste ano e conta com uma belíssima atuação da veterana Yoon Hee-jong – ao redor de quem a trama gira.

Essa senhora, Mijo, a um só tempo descobre que sofre do Mal de Alzheimer e que seu neto – de quem toma conta – foi um dos responsáveis pela morte de uma garota de 16 anos.

Antes de tudo isso ocorrer, contudo, a avó decide assistir a aulas de “como escrever poesia” – ela que, quando menina, ouviu alguém lhe dizer que, no futuro, seria poeta, pois “gostava de flores e falava coisas estranhas” – e, diante das novas circunstâncias, paralelamente às tentativas de livrar o neto de qualquer repercussão da participação no crime, se vê diante de outra batalha: contra o papel em branco; sente-se incapaz de escrever um poema.

Nesse sentido, o que percebemos ao longo do filme é que a dificuldade para encontrar inspiração e deixar as palavras fluírem é, na verdade, o esforço para se permitir sentir. Mijo é uma senhora excessivamente contida, que, no fundo, não consegue entender o que sente; não sabe lidar com as emoções que, de repente, a tomam de assalto. Certa vez, o professor diz que no coração de cada um há poesia e, assim, qualquer pessoa seria capaz de escrever. Em um coração que reprime os sentimentos, contudo, não parece sobrar espaço para os versos.

Da mesma forma que a poesia é uma metáfora para o sentir, o Alzheimer parece ser uma desculpa forjada pelo próprio corpo para poder, definitivamente, não expressar o que se sente. É como se a doença fosse uma reação de defesa diante de uma vida cujos sentimentos parecem constantemente abafados – seria mais conveniente, portanto, que se esquecesse de tudo (o filme mostra semelhanças claras com o livro You Lost me There, sobre o qual já falei aqui).

Por outro lado, a vontade de escrever é desesperadora: aquela senhora busca incessantemente a cura para o bloqueio. Vive um conflito constante entre a tendência a reprimir o que sente – e a esquecer– e a urgência de dar vazão aos sentimentos – e, assim, ter sobre o que escrever (“o esforço para lembrar é a vontade de esquecer”, como canta Rodrigo Amarante…).

O espectador é, assim, convocado a mergulhar nessa angústia, a qual se torna ainda mais profunda, já que não há qualquer “distração”– sequer há trilha sonora. Dessa forma, praticamente em silêncio, vemos que as emoções, mesmo quando não ditas, acontecem e trazem conseqüências; e, quando colocadas para fora, aliviam – e podem fazer poesia.

 (Poesia, direção e roteiro de Lee Chang-dong.)

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3 respostas para “Sentindo poesia

  1. […] (exemplos: Carlos, O Estranho caso de Angélica, Tournée, VIPs, Cópia Fiel, Mistérios de Lisboa, Poesia, Rosas a Crédito, […]

  2. Eu concordo muito com esse verso do Amarante!!!

    • Flora disse:

      Natália, confesso que sou suspeita para falar qualquer coisa quando se trata do Amarante…por isso, concordo plenamente com você!
      Fico muito feliz em saber que você continua nos visitando! 😉
      Um beijo e obrigada!

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