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Falando grego

em outubro 26, 2010

Filmes despretensiosos que, no âmbito de sua proposta, cumprem sua função e, melhor ainda, não se levam muito a sério costumam ser meus favoritos. Em meio a centenas de filmes “cabeça” da 34a. Mostra de Cinema, assistir ao grego Academia de Platão, de Philippos Tsitos, não deixa de trazer um certo alívio (#ficaadica de um dos filmes menos badalados e mais bacanas da Mostra). Isso porque filme bom não necessariamente – ou melhor, raramente – precisa ser hermético ou excessivamente difícil.

Academia de Platão traz a história de um cinqüentão, Stavros, que mora com sua mãe – uma senhorinha já não mais no auge de sua sanidade mental – e passa os dias sentado em frente à sua vendinha com três amigos. Os quatro, apesar de muito simpáticos e engraçados, são, no fundo, moleques que, há quarenta anos, praticamente não trabalham (apesar de serem donos de estabelecimentos na rua, não têm clientes), passam as tardes bebendo cerveja, ouvindo rock e jogando bola na rua.

Todos, porém, parecem genuinamente satisfeitos com sua situação, porque se consideram, acima de tudo, gregos; e isso em um bairro especialmente ocupado por imigrantes (chineses e albaneses) é o que importa.  Nesse sentido, a xenofobia e o preconceito em relação àqueles é central no filme, mas é tratada com certo humor: dentre os passatempos preferidos dos marmanjos está assistir ao cachorro Patriota latir para albaneses – e, reza a lenda, apenas para albaneses – e contar quantos são os chineses trabalhando em uma obra vizinha.

O aparente equilíbrio é quebrado quando a mãe de Stavros reconhece em um albanês seu suposto filho perdido. Mais, em função do reaparecimento daquele, Stavros vê sua mãe – quem pensava já não ser capaz de falar ou sair de casa – ganhar vida novamente. Para piorar, descobre que ela fala albanês e que, de acordo com uma história que nunca lhe havia sido contada, ele, assim como ela, não seria grego.

Dali para frente, diante da perspectiva de se saber aquilo que sempre desprezou, Stavros fica completamente atordoado, seus amigos ficam confusos – afinal, se ele fosse mesmo albanês, eles poderiam continuar a amizade? – e uma verdadeira crise de identidade se instala. O que mais o angustia, no entanto, é a dúvida, é não saber ao certo de onde veio. Isso porque, para ele que sempre se considerou, acima de tudo, um grego, pior do que se saber albanês é não saber quem se é.

(ACADEMIA DE PLATÃO (AKADIMIA PLATONOS), de Philippos Tsitos)

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Uma resposta para “Falando grego

  1. […] pérolas inimagináveis (é nessa categoria que se encontra o meu favorito da Mostra até agora: Academia de Platão). Assim, a dica é: não pense nem pesquise muito, simplesmente […]

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