re.verb

cultura, crítica e tudo o mais

La vie en rose?

em outubro 28, 2010

Àqueles dispostos a ver algum filme da Mostra, sem saber exatamente qual; aos que olham para os nomes dos diretores e, à exceção de uns três ou quatro figurões, não ligam o nome à pessoa, aviso de antemão: Rosas a Crédito (Roses à Crédit), de Amos Gitai, é um bom filme, mas não é fácil.

Para quem tem certa familiaridade com as obras desse diretor, o comentário acima deve soar um tanto óbvio – já que aquelas, em especial Kadosh, Kippur, Kedma e Free Zone (com Natalie Portman) – sempre foram conhecidas por refletir o posicionamento de esquerda do diretor e o engajamento em questões políticas, em especial o conflito Palestina-Israel. Ainda, também se notam em sua obra heranças da nouvelle vague, como a preocupação em imprimir um estilo livre, mas autoral, que, com a câmera, cria planos e cenas que, em si, são repletos de expressão e quebram padrões da estética cinematográfica “usual”.

Entretanto, em relação a Rosas a Crédito, mesmo os mais “antenados” podem ter ouvido coisas do tipo: “esse filme é diferente dos outros, não é politizado” ou, pior, “Rosas a Crédito é sobre uma história de amor”…

Sim, o filme é sobre uma história de amor entre dois jovens franceses, Marjoline (Léa Seydoux) e Daniel (Grégoire Leprince-Ringuet), que se casam no período Pós 2º Guerra Mundial. Entretanto, tal relacionamento é apenas o objeto sobre o qual incide uma dura crítica ao capitalismo e à formação – e consolidação – de uma sociedade superficial que sobrestima o consumo como forma de satisfação de necessidades mais profundas.

Marjoline é uma garota lindíssima que, oportunamente, trabalha em um salão de beleza. Refletindo a influência do american way of life na Europa daquela época, a jovem tem basicamente duas preocupações na vida: manter-se impecável (de salto alto e batom, mesmo para arrumar a casa) e mobiliar o novo lar – um apartamento “moderno”, mas minúsculo, com vista para outro prédio – com o que de mais novo estiver disponível no mercado (ela repudia o antigo, o tradicional).

E, assim, sem conseguir atinar que a condição financeira do casal não permite tamanha esbórnia consumista, ela vai se afundando em dívidas – e tal processo se dá de forma quase ingênua; é como se ela não acreditasse na existência de uma restrição orçamentária.

No início do filme, Marjoline observa fascinada, durante um bom tempo, uma bonequinha solitária que gira sem parar dentro de uma caixinha de música. Ela acha triste ver uma figura tão linda ali, presa e sozinha, a rodopiar… ao final, percebemos que ela, assim como a sociedade desde aquela época (a cena final retrata os dias de hoje), é a bailarina: linda por fora, mas oca – e que, mesmo tonta, gira, gira, gira sem saber porquê.

(Rosas a Crédito (Roses à Crédit), de Amos Gitai)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: