re.verb

cultura, crítica e tudo o mais

Ao leitor, com carinho

em novembro 1, 2010

Lançamentos de livros são eventos peculiares. Lá estão o autor, as pilhas de sua nova obra e pessoas as mais diversas. Familiares, mesmo aqueles que jamais lerão a obra, sempre comparecem. Dependendo do local do evento, curiosos e interessados em canapés chochos – mas grátis – marcam também presença. De acordo com a circunstância (como escritores celebridade, ou personagens vampiras), fãs também podem surgir.

E todos ali se reúnem para prestigiar o autor, sua obra, mas, ouso dizer que, principalmente, para levar para casa uma dedicatória.

É intrigante o fascínio que uma dedicatória causa… Uma explicação simples seria que esta se assemelha ao autógrafo de uma pessoa que se admira – ou que é conhecida por todos – e, assim, seria como um souvenir trazido da última viagem; algo que atesta: “encontrei Fulano” (como um cartão postal diz: “estive aqui”).

Mas, em relação à dedicatória, a mim parece que há algo além… talvez seja a esperança de que aquela dedicatória seja uma prova de intimidade entre leitor e autor – o que raramente existe. De que, abstraindo-se a obra lançada, o papel e a caneta à frente do escritor sejam arma e munição para uma declaração de amor (“amor” em seu sentido mais simples, que é o de se importar com o outro, de lhe querer bem e precisar que a recíproca seja verdadeira. É o oposto do descaso, da indiferença).

 Daí porque, em grande parte dos lançamentos de livros, o que sucede a dedicatória é a frustração, a quebra das expectativas – ou do coração (“a heartbreak”). Quem compra um livro e o entrega ao autor espera que, ao ser devolvido, com sua respectiva dedicatória, o objeto se torne o que une o escritor ao leitor. Deseja que seja um bilhete pessoal, elaborado com dedicação, carregado de significado; uma piada interna; uma palavra de carinho…

 Mas, outra vez, quanta injustiça! Os “dedicatários” esquecem-se que aqueles rabiscos na página de rosto não carregam a função de ter algo a dizer…têm somente um objetivo prático: um endereçamento. “À/Ao X, dedico Y”.

 Assim, sendo alguém que já suplicou por carinho em tantos lançamentos – e sempre se frustrou – sugiro que, diante de uma dedicatória decepcionante, os leitores leiam o livro e procurem o amor ali dentro. Se não encontrarem, tanto melhor; que isso lhes obrigue a olhar aqui fora.

Anúncios

2 respostas para “Ao leitor, com carinho

  1. Eu sempre penso sobre isso nos lançamentos de livros em que vou, mas nunca tinha exteriorizado, ainda mais de maneira tão bacana!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: