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SWU e o sentimento de rock and roll

em novembro 2, 2010

Antes que o SWU vire um dos capítulos daquele programa deprê de retrospectiva de final de ano da Globo, queria deixar aqui umas besteiras que me ocorreram.

Até agora acho que as pessoas não entenderam direito o que rolou naquela segunda-feira, 11 de outubro, em Itu. Sei que no papel era só o terceiro e último dia do tal do SWU, mega festival de música, artes e sei lá mais o que. Mas acho que para mim (e tomara que para outras pessoas também) foi um pouco diferente, um pouco mais que isso… Desde moleque, sempre quis ir a um desses festivais monstruosos lá de fora (SXSWs, Coachellas e Readings da vida). Não sei exatamente o porquê disso, mas tinha a impressão de que apenas no solo sagrado desses festivais eu entenderia finalmente o que era rock and roll. Não me entendam mal. Nunca faltaram decibéis nas caixas de som aqui de casa e Mr. Tabourine Man sempre rolou muito no toca-discos. Mas ainda assim, faltava alguma coisa… Ou melhor: faltava sentir alguma coisa que eu não sabia bem o que era. E, sinceramente, não esperava sentir essa coisa sem nome tão cedo na minha vida. Não à toa, fui para o SWU sem grandes expectativas, mais animado com a experiência de dormir no camping e com a perspectiva de tomar alguns litros de cerveja com minhas colegas de blog do que com o line-up dos quatro palcos.

Confesso, entretanto, que aos poucos fui percebendo que aquilo ali dificilmente se resumiria a uma inocente ida a Itu, como imaginava. E quando, logo no primeiro dia, vi o Los Hermanos tocando “De Onde Vem a Calma” para aquela fazenda de gente em transe tive certeza disso. Olhava para o lado e via gente de tudo quanto é tipo sentindo tudo o quanto é tipo de sentimento que existe para se sentir. Melhores amigos sofrendo calados lado a lado, garotas chorando de uma maneira incrivelmente adulta, gente cantando junto até quando só se ouviam os instrumentos de sopro. Já naquela hora senti uma primeira pontada, daquelas que não te deixam respirar mesmo. Senti que todas aquelas pessoas estavam de fato vivendo aquilo tudo e acho que nunca tinha visto tantas pessoas vivendo algo daquele jeito ao mesmo tempo. Foi uma sensação perturbadora e aquela noite fui dormir com aquele zunido típico de show de rock zunindo de uma maneira diferente.

Ainda não muito recuperado da paulada do sábado, o domingo começou daquele jeito que todo domingo devia começar: devagar, com um sol meio gelado na cara e uma música lá no fundo que te faz querer aumentar o volume… E muito embora o volume tenha sido bem alto nos palcos do SWU naquele dia (como a Fló bem disse: o Bomba Estéreo fez o pessoal do Kings of Leon parecer umas menininhas), acho que o som que ficou para mim daquele domingo foi o som do palco grama. Assim batizamos aquela roda imensa de gente que sentou o traseiro no chão do camping com o simples objetivo de tocar violão, batucar no escorregador e tentar acertar a letra de Faroeste Caboclo pelo menos uma vez… Foi ali que, com um misto de surpresa e timidez, tomei a segunda agulhada no peito. Eu definitivamente não sabia quem era aquela gente que preferia fazer música a dormir, comer ou qualquer outra coisa. Uma gente de cara engraçada e dos lugares mais diferentes cuja única preocupação era viver as coisas da maneira como elas se apresentavam. Sem crises. Sem dramas. Se não tinha água para tomar banho, a mangueira da fazenda estava logo ali. Se não tinha energia para carregar os eletrônicos que se fodam os eletrônicos.

Agora o que eu também não sabia e só percebi depois – quando me vi errando uns versos fáceis dos Beatles – é que eu também era uma daquelas pessoas. Pelo menos por ora, fazia parte daquela gente que até pouco tempo atrás não sabia sequer que existia. E devo dizer que perceber isso não foi algo muito fácil. Aquele dia acordei achando que era uma pessoa e fui dormir sem saber mais nada.

Nem preciso dizer que no segundo em que abri os olhos no terceiro dia, não consegui mais fechar. Não ia conseguir ficar enrolando dentro do saco de dormir como fiz nos outros dias. Estava ansioso e sabia que sair da barraca e encarar o dia podia representar mais uma porrada no meu baço já fragilizado (àquela altura já estava me sentindo mais traumatizado que um veterano da segunda guerra). Liguei o Ipod e recapitulei mentalmente as músicas que queria ouvir no dia: “Sunshine” do Josh Rouse e “Where is My Mind?” dos Pixies. Inspirei fundo, expirei o resto de coragem que tinha, comi qualquer coisa e parti para os shows. O cenário já semi-destruído depois de dois dias de vento frio tinha feito bem para a Fazenda Maeda. Combinava com as caras cansadas dos presentes e as calças com barras enlameadas.

O primeiro show que queria assistir era o do Mombojó. Palco OI FM abarrotado de gente no meio da tarde e uma brisa morna rara nos três dias de festival. Antes que as pessoas pudessem se levantar, um Felipe S possuído por demônios de sua terra natal já dava cambalhotas no palco e cantava onomatopéias em um ritmo estarrecedor. Nenhuma música parecia passar em branco para o público; cada uma parecia ter uma frase capaz de despertar algo em cada pessoa. Todos tinham muito claro em sua cara uma memória, uma sensação, um gosto ou uma piada. No meu caso, a frase que ficou ecoando durante e depois do show foi “sinto perigo em qualquer lugar”, acompanhada daquela distorção esperta. Lembrei que há mais ou menos sete anos atrás tinha escutado aquela mesma sensação (é um negócio meio sinestésico mesmo) em outro verso de outra banda (“sair de casa já é se aventurar”) e cheguei à conclusão de que já não sentia aquilo. Apesar do medo de novas pontadas, me sentia em casa naquele lugar e no meio daquela galera.

Depois do show do Mombojó, tinha um tempinho até o Josh Rouse. Aproveitei então para cumprir meu ritual swuano muito constante ao longo dos três dias: churrasquinho Mimi, cerveja, pausa na frente cabine de rádio da OI FM para tentar cumprimentar o Massari e depois em frente a parede de escalada para dar risada vendo o pessoal tentar subir completamente embriagado. Mais uma vez essa seqüência funcionou perfeitamente e quando vi já estava na hora de voltar para a tenda da OI e assistir ao mestre Josh Rouse.

Estava relativamente tranqüilo para o show. Já tinha visto o cara aqui em SP e pensei “melhor do que aquilo não vai ser nem ferrando”. Pra que? Tomei na cara. Foi só o cidadão subir no palco só com violão, uma gaita de boca e mais dois músicos espanhóis (um no contrabaixo e outro no violão também) que já saquei que o negócio ia ser pesado. E não deu outra. Mesmo com a barulheira da tenda baladinha vazando, quem estava ali nem piscou. Uma balada emendada na outra, nada de pirotecnia, pista vip, panos de fundo espalhafatosos ou mega telões. Um exemplo de como um show deve ser: simples e maior do que o hype ao seu redor (toma essa Paul McCartney). Para melhorar ainda mais, depois de umas três ou quatro músicas, começa: Forget all your little problems, forget the boy you left at the bar… Dei aquela engasgada, acendi outro cigarro e meu braço direito começa a formigar. O pessoal acompanhava cantando baixinho e eu (que sabia a letra de cor) nem conseguia respirar. Um nó na garganta formado por tudo que aquela música me lembrava e ao mesmo tempo uma sensação de que agora nada daquilo importava, só a música em si. E quando chegou em “So come on lady… Give this bum a sense of right… You’re my steady… You’re the one that makes me feel like sunshine…” eu já tinha certeza que estava no melhor lugar do mundo naquele momento.

Sabe quando você dorme em cima do braço e quando acorda ele está meio adormecido? E você pode mordê-lo ou batê-lo contra a parede que não vai sentir nada? Então. Quando o show do Josh Rouse acabou, acho que eu estava inteiro assim. Anestesiado. Adormecido. Uma sensação de paz fodida.

E o mais surreal é que quando o show do Cansei de Ser Sexy começou eu continuei daquele jeito. É lógico que ser anestesiado por um show do CSS não é a mesma coisa do que ser anestesiado por um show do Josh Rouse. Uma coisa é você pegar no sono no colo da pessoa mais importante do mundo enquanto ela te faz carinho e outra é você apagar depois de tomar uma surra com o soco inglês eletrônico da Lovefoxxx. Sacou a diferença? Ainda assim, a sensação de paz é a mesma.

Aqui vale um parênteses sobre o show do CSS. É bem verdade que estava numa puta dúvida entre assistir a banda do Josh Homme e o CSS. Mas quando Deus revelou seu lado rock star e atrasou o show do QOTSA por problemas técnicos, dando o tempo necessário para quem quisesse assistir o show do CSS, não tive dúvida e fui lá ver a banda dos brasileiros mais gringos que conheço. Foi animal. A banda entrou com a faca na boca, num espírito “ninguém será perdoado”. E ninguém foi mesmo. Justificando sua presença nas listas de rokers mais cools do mundo, Lovefoxx falou de novela, da Xuxa, da Sacha e ainda colocou todo mundo para dançar imbecilmente. Se a garota do Bomba Estéreo fez o KOL parecer umas menininhas barbadas, o CSS fez o Bomba Estéreo parecer… Deixa para lá. Enfim, o show foi foda e depois ainda deu para conferir o Josh Homme mostrando que ainda sabe destruir qualquer coisa com uma guitarra.

Depois de Mombojó, Josh Rouse, CSS e QOSTA, só faltava o Pixies. O festival estava acabando (e esse post também está, não se preocupe). Não vou mentir: aquela sensação de medo de voltar para as aulas depois das férias de verão na quinta série bateu forte. Fui para o show do Pixies em completo estado de negação. Coloquei na cabeça que o show ia durar 40 horas ou o resto da minha vida e fui embora tomar provavelmente a última agulhada/paulada/fisgada daqueles três dias. Não deu outra, graças a Deus. No momento em que a Sra. Kim Deal e o Sr. Black Francis pisaram no palco principal me emocionei. Imagina uma criança de 10 anos que sonha todo dia em ser um super-herói e num domingo qualquer cruza com o Super-Aranha na rua. Foi mais ou menos isso que senti quando vi eles entrarem lá, cantarem Caribou(uuuuu) e fazerem até os fãs de Linkin Park calarem a boca e ouvir. Os caras eram e são meus super-heróis. Foi durante o show deles que percebi que ouvir música é uma coisa e sentir música é outra completamente diferente.

Acho que até ali eu não tinha captado tudo que rolara nos últimos três dias. Pelo jeito, para isso eu precisaria ouvir “Where is My Mind?”. O que eu não sabia é que essa iria ser a última música do show e (para mim) do festival. Assim que começou o gritinho (uhhhhhhh) da Kim Deal e o Francis Black mandou o ‘Stop’ (o começo de música mais rock de todos os tempos), acho que eu consegui alcançar um segundo de distanciamento daquilo tudo e quase que imediatamente pensei e narrei para mim mesmo aquela situação (um negócio meio Stranger Than Fiction). Estava longe de casa, no meio de duzentas mil pessoas, sem comer e dormir direito por três dias e mesmo assim estava tudo bem. A poeira não me incomodava mais e nem quando eu resolvi pegar uma lata de cerveja gelada minhas mãos se lembraram do frio. E no meio daquela gente que eu não conhecia, fazendo coisas que não costumo fazer, me senti invencível.

Lá longe as luzes de Itu me faziam lembrar que existia algo além daquilo ali, mas eu não me importava. Tudo ia ficar bem.

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6 respostas para “SWU e o sentimento de rock and roll

  1. Laura disse:

    Grande post, Gaba. Só faltou dizer que, na volta, um Bossanova te esperava…time is an arrangement, time is an arranger, i’m a derangement. all my thoughts, all i am are my thoughts, all my thoughts, i am all what i’m taught.

  2. Ana disse:

    Belo post Gá. Foi um privilégio poder compartilhar alguns destes momentos com você (+ Politi e Daud), a despeito da minha ignorância musical!

  3. Flavio disse:

    Legal. Foi bom ler opiniões e visões bem diferentes das minhas em relação ao swu e à música em geral. Algumas observações: ao escrever gaita de boca (existe gaita que não seja de boca?) e Paul MacCartney (é McCartney) você perde muita credibilidade. Cuidado.

  4. Galera, muito obrigado pela força e pelos comentários. Mais especificamente: Lau, você é foda… Chegar aqui e ganhar um Bossanova foi animal. Ana, você é uma das melhores companhias que existem. Flávio, em relação ao sobrenome do Paul, falha nossa! Na correria essas coisas passam… Mas valeu pelo toque! Ja corrigi. E quanto a gaita, é normal as pessoas chamarem a gaitinha de gaita de boca mesmo… Não sei se existe alguma justificativa técnica (talvez seja para distinguir das gaitas tipo baixo ou ainda dos acordeons). Bjos e abs para todos.

  5. Carol Amadeo disse:

    Tô com inveja de você por 3 coisas:

    1. o camping parece ter sido irado. sua descrição das pessoas tocando violão e cantando fez minha super idéia econômica de voltar pra casa pra dormir ficar bem chata!
    2. você foi no CSS! eu fiquei numa dúvida cruel, mas acabei escolhendo por QOTSA! quando soube que dava pra ter visto os dois fiquei mal!!
    3. você escreve bem pra caralho. sua capacidade de transformar sensações em letras é especialmente legal, tudo isso, sem deixar de fora o tom poético.

    amei o post! parabéns!!
    beijos

  6. Cuba disse:

    Belíssimo comentário sobre o Pixies (só li essa parte)!

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