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Inexorável

em novembro 3, 2010

Normalmente, o famoso “chato do cinema” é aquele que, sem qualquer cerimônia, faz questão de contar a todos o final do filme ao qual acabou de assistir – principalmente quando se tratam de filmes em que, ao final, há o desfecho de uma questão que se desenrolou ao longo de toda a obra (quem matou fulano, quem é o pai de sicrano, se o casal viverá feliz para sempre, etc.). Entretanto, há também filmes em que as reviravoltas não se concentram apenas do meio para final, mas se encadeiam, uma atrás da outra, desde o começo. Em relação a estes, falar qualquer coisa pode estragar a surpresa

É por essas e outras que escrever sobre Never Let Me Go, de Mark Romanek, (cuja tradução do titulo para o português varia, de acordo com a sala de projeção – !!! – entre “não me deixe jamais” e “não me abandone jamais”) é pisar em ovos. Isso porque grande parte do apelo do filme – cujo roteiro é uma adaptação do aclamado livro homônimo de Kazuo Ishiguro – está justamente no suceder de descobertas e reviravoltas com as quais a platéia se depara desde o início.

Entretanto, sob o risco de soar um pouco enigmática – antes isso do que chata – é possível dizer, sem spoliers, algumas coisas. Primeiro, em relação à forma: não deixa de ser uma experiência peculiar assistir a esse filme depois de uma semana de filmes “cults”, pois, embora seja muito bom e relativamente complexo, não tem a sutileza como seu atributo principal – assim como boa parte dos filmes hollywoodianos. A música, o drama, as atuações, tudo contribui para um certo exagero e grandiloqüência – meticulosamente arranjados para fazer o público chorar e, por que não, para ganhar Oscars.

Na história há três personagens centrais: Kathy (Carey Mulligan, mais uma vez encantadora), Ruth (Keira Knightley) e Tommy (Andrew Garfield). Os três foram criados juntos em uma espécie de internato, no interior do Reino Unido. Juntos também cresceram, descobriram o amor e o desamor. Lado a lado ainda souberam a razão pela qual vieram ao mundo – um objetivo muito específico, cruel e, como se percebe ao longo do filme, inescapável.

Ao acompanhar a jornada dos três, somos instigados a pensar sobre a forma mais satisfatória de se lidar com o destino à nossa frente; uma vez que nos sabemos mortais e que a vida se esvai a cada segundo, como fazer valer o pouco que nos resta? Até que ponto devemos, ou não, nos conformar com um caminho pré determinado? Mais ainda, caso se opte por não questionar – ou se aquela for a única via possível – como identificar em meio a uma rota traçada por outrem aquilo que, mesmo efêmero, dá sentido ao resto das nossa vidas?

São perguntas que ficam. E, diante delas, assim como aqueles três, também somos crianças tentando achar respostas. Falta, para tanto, entender o que diabos significa uma palavra tão difícil: inexorável.

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