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Rock in hole

em novembro 4, 2010

O livro No Buraco, de Tony Bellotto, desconstrói logo de cara dois mitos nos quais alguns insistem em acreditar: (i) as obras de arte invariavelmente refletem a personalidade e as frustrações dos autores – e, seguindo esse raciocínio, algo triste e sombrio só poderia ter sido criado por um autor deprimido – e (ii) escrever de maneira sofisticada é sinônimo de empolação.

Em relação ao primeiro ponto, basta dizer que o protagonista e narrador da obra, Teo Zanquis, é um roqueiro frustrado que, nos anos 80, emplacou apenas um sucesso ao longo de sua – curta – carreira de aspirante a rockstar. Por outro lado, Tony Bellotto, o autor, é guitarrista de uma das maiores bandas do rock brasileiro, os Titãs, a qual, desde os anos 80, emplaca um hit atrás do outro. Aos cinqüenta e tantos anos, Teo jamais teve relacionamentos amorosos sérios; Tony Bellotto continua, ao que tudo indica, muito bem casado com Malu Mader…e por aí vai.

Por outro lado, dizer que Teo não é Tony não significa dizer que as experiências do autor não contribuem para a obra. Muito pelo contrário: é justamente por sua familiaridade com a vida de rockstar que ele nos transporta para dentro de uma narrativa tão fluida e natural – ainda que às avessas, quando comparada à sua trajetória real.  Mas, de novo, trazer referências da vida do autor para a narrativa retratada em sua obra é muito diferente de equiparar a voz e a psique das personagens às do autor. Em No Buraco, Bellotto é capaz de retratar com tamanha verossimilhança o fracasso de sua personagem justamente porque conhece tão bem o sucesso.

Quanto à forma, vale dizer que tudo é escrito em tom informal, mas sempre de modo engraçado e inteligente (lembra outro “vitorioso” da música brasileira, Nelson Motta, com seus thrillers O Canto da Sereia e Bandidos e Mocinhos). Algumas pessoas também se esquecem que usar uma “linguagem coloquial” não significa falar errado. É fascinante ver como Bellotto consegue ser tão elegante e escrachado ao mesmo tempo (há, por exemplo, relatos hilários da empáfia de um “dissertador semântico-ginecológico” que testa a paciência de Teo ao divagar sobre a importância do “u” em palavras de cunho sexual…). O que poderia facilmente descambar para a grosseria e o mau gosto, acaba aliando bom humor, boa escrita e sofisticação – ainda que o livro renda alguns momentos de rubor nas faces de leitores mais desavisados…

Não seria absurdo dizer que a história só funciona porque a forma como é escrita é um atrativo em si. Isso porque o “enredo” do livro é o seguinte: Teo, o roqueiro frustrado, passa um dia todo na praia de Ipanema, com a cara enfiada num buraco na areia, ouvindo o movimento da praia e lembrando de suas desventuras – dentre elas, um mistério a ser resolvido envolvendo sua namorada Lien, uma coreana de 19 anos (“o segredo do Cannoli”…). Portanto, convenhamos, um roteiro assim poderia estar fadado ao fracasso imediato. Entretanto, é justamente a forma como o autor intercala momentos memoráveis de sua vida, digressões roqueiras e conversas da praia – que a um só tempo faz referência precisas a figuras musicais e literárias renomadíssimas e usa as expressões mais chulas que se pode imaginar – o que encanta.

Por essas e outras que No Buraco é, para os devotos do rock’n’roll, um raro exemplo de boa música em prosa. Aos não tão roqueiros assim, é um livro moderno, bem escrito e engraçado; com a garantia de gargalhadas e sorrisinhos marotos do início ao fim.

Yeah!

(NO BURACO, Tony Bellotto, Companhia das Letras, 2010.)

 

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2 respostas para “Rock in hole

  1. Ana Paula disse:

    E aí Florita!!!…amei seu Blog…muito show.
    APM

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