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Jovem banda antiga

em novembro 8, 2010

Lembro que, enquanto estava no colégio, vários amigos fizeram uma espécie de “intercâmbio futebolístico” na Suécia. Sempre que isso acontecia eu morria de ciúmes, pois, invariavelmente, todos voltavam deslumbrados; apaixonados pelas garotas suecas. Quem diria que, alguns anos depois, minhas arquirrivais ressurgiriam…a diferença é que, desta vez, estamos no mesmo time: dos amantes da música brasileira.

Como disse aqui semana passada, ontem foi o lançamento de “Escaldante Banda”, primeiro álbum da banda paulistana Garotas Suecas. Esse trabalho – que vocês podem conferir na íntegra aqui – ganhou notoriedade quando apresentado no festival South by Southwest, em 2009, e chamou a atenção de vozes importantes da mídia especializada internacional, como a revista Spin e o caderno de artes jornal The New York Times.

Considerando as explícitas referências presentes no trabalho da banda, o encanto que causa nos gringos não é surpresa: é nítida a influência de nomes com os quais os estrangeiros costumam identificar imediatamente a musica brasileira: a psicodelia dos Mutantes, (o que se vê em “Banho de Bucha”) o funk e soul de Tim Maia (como em “Tudo Bem” e “Mercado Roque Santeiro”) e um certo nonsense cadenciado a la Jorge Ben.

Ainda, como raramente se vê nestes dias, há também fortes influências do iêiêiê e da jovem guarda (como em “Você não é tudo isso, meu bem” e “Não se perca por aí” – nesta última se diz: ”e se um dia eu  também me levantar querendo ouvir Roberto, eu sei que vou me acostumar, e você também irá”).

E, como se não bastasse, em “Ninguém Mandou”, o vocalista Guilherme Saldanha soa assustadoramente parecido com Raul Seixas.

Assim, é difícil classificar “Escaldante Banda” como um som muito inovador, ou revolucionário, já que cada faixa faz lembrar nomes marcantes da música brasileira. Justamente por isso, ouvir esse álbum não deixa de trazer uma certa nostalgia, uma saudade de tempos que os integrantes do Garotas sequer viveram, mas que remetem – mesmo os ouvidos mais jovens – à boa e velha música brasileira.

Assim, partindo do “relicário musical” correto, “Escaldante Banda” é uma boa trilha para uma tarde ensolarada. Mas o trabalho da banda ficará ainda melhor a partir do momento que deixar de prestar tamanha reverência àqueles que a inspiraram musicalmente e, assim, seja possível ouvir qual é, de fato, a voz própria do Garotas.  Que os ídolos de outrora, assim como aquelas outras garotas suecas que embalaram os sonhos dos meus amigos em tantas noites, sejam musas inspiradoras, mas que não cantem pela banda.    

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6 respostas para “Jovem banda antiga

  1. Felipe Daud disse:

    Flourish, Mundim e Ximena,

    Parabéns pelo blog. Tá muito profissa. A arte, a frequência dos posts e a qualidade. Bem bacana mesmo !!!

    Aproveitando que meu comentário vai para o Post do Garotas Suecas, vou comentá-lo. Ainda não ouvi o álbum todo, mas gostei muito das duas músicas que eu ouvi até agora. Parece estar muito bem produzido … O que eu achei mais legal, apesar da música, é o fato de você poder baixar o álbum inteiro do site deles. Acho que esse é um canal muito legal para bandas independentes conseguirem divulgar seu trabalho. Não precisa se vender para gravadoras para se alcançar algum sucesso. Além disso, eles conseguem, com o apoio das redes sociais, criar ouvintes cativos, que terão muito mais acesso a informações, como agenda e tudo mais.

    Não sei até que ponto as entidades de classe não conseguem evitar esse tipo de divulgação tão positiva para o consumidor de música. Não sei se esse é um dos objetivos do blog, mas acho que a anteminuta da lei de direitos autorais deveria incentivar esse tipo de promoção de bandas e demais artistas independentes. Flourish, o que você acha ???

    • Flora disse:

      Dau, obrigada de verdade não apenas pelos elogios, mas pelo seu comentário. Suscitar idéias e questionamentos é o que de melhor pode vir deste blog!
      Sobre o que falou, concordo plenamente. Acho que uma grande contribuição da internet foi retirar das grandes gravadoras a exclusividade na divulgação de novas bandas. O indie (e bandas das quais eu e você gostamos tanto) não teria surgido sem iniciativas como essa do Garotas – e de tantas outras bandas, como o Holger, de quem já falamos aqui no re.verb.
      Compartilho também a opinião de que a legislação poderia dar uma forcinha – p.ex. ao prever mecanismos alternativos de compensação dos artistas concomitantemente à descriminalização da disseminação do conteúdo – mas isso é papo para uma tese e não um post…hehe
      De qualquer forma, valeu mesmo pela visita, Dau! Volte sempre (sempre mesmo!), sugira pautas e dê sua opinião!
      Beijão

  2. Juliana disse:

    Adorei a sugestão. Já baixei as músicas. beijossss

  3. […] comentário do meu grande amigo Felipe Daud ao post do Garotas Suecas, no qual ele comentou sobre a importância de os artistas disponibilizarem suas obras ao público, […]

  4. […] místico-psicodelicas de Raul Seixas – vide os últimos trabalhos de nomes como Arnaldo Antunes, Garotas Suecas, e Marcelo […]

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