re.verb

cultura, crítica e tudo o mais

Incompletude generalizada

em novembro 9, 2010

Daniel Piza, jornalista, escritor, tradutor, professor, crítico e corinthiano, lançou, em agosto deste ano, seu primeiro livro de ficção, Noites Urbanas (Ed. Bertrand Brasil). A obra é composta por pedacinhos – contos e mini contos sobre vidas paulistanas – que carregam formas, vozes e tons distintos, mas juntos formam um todo poderoso.

Chama a atenção certo fio condutor que liga essas pedrinhas tão coloridas e diferentes: uma vida insatisfatória, pela metade, que, se não for característica intrínseca desta cidade, permeia a vida de quem aqui vive com uma habitualidade incômoda…

Tal incompletude generalizada poderia ser resumida no trecho: “Pensou em descrever para ele sua vida de ‘quases’ e ‘parecias’, seu cansaço diante do que é apenas útil ou correto, sua sensação de que há sempre um feixe de frustrações atrás de expressões cotidianas de cada pessoa, mesmo as de semblantes razoavelmente felizes” (“Circuito interno”).

É como se não houvesse perspectiva – não há futuro. Este, sabidamente inalcançável, mal se anuncia e já fica na lembrança – como em “Memórias Futuras”.

Há um círculo vicioso que começa com a conformação com a não plenitude, passa por alguma tentativa frustrada de se preencher o vazio com algo ainda mais oco (seja com a ilusão de uma cultura distante, projetada em um par de olhos puxados; seja com a televisão que transmite a vida alheia; com uma casa em Campos do Jordão, ou ainda com a obediência à última moda) e culmina com a insatisfação e a falta de algo que sequer aconteceu. Daí começa tudo de novo.

No coração de cada personagem (só delas?) cai uma garoa, como em “Calor da Chuva”; ou, se a garoa ainda não cai, já há o presságio de que, independente do que se faça, as coisas não andarão bem, não haverá saída – há, sim, aquele bafo quente, incômodo e pegajoso, que precede a tempestade.

Não se sabe mais de quem é o reflexo no espelho – a cara enevoada do velho ator, turvada por suas personagens; a moça com dois namorados, que tenta se conhecer através de ambos, sem se achar em nenhum – nem quem é o outro – a menina, ou a cultura de seus ascendentes? Tampouco se sabe se a vida ainda começa, ou já se esfarela, como bambu morto – se o pouco que se viveu é apenas o início, ou já é o “cimo da montanha” de Brás Cubas e Virgília, em Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Mas, mesmo que tudo pareça um caminho torto e sem volta, há ali também uma necessidade de ainda se acreditar; pode ser que, mesmo nos casos perdidos, haja esperança. Haja coragem para pintar o cabelo de roxo, assumir um romance com o melhor amigo do marido morto; haja um amanhecer mais colorido para estas noites urbanas.

(Noites Urbanas, Daniel Piza, Bertrand Brasil, 2010)

Anúncios

2 respostas para “Incompletude generalizada

  1. Lurry disse:

    Por hora, e pra não desandar a falar besteira (falta o gene cult, né Flocs?!), vou me ater a elogiar o trio de blogueiros. Meus caros; parabéns pela empreitada, pelos textos maduros que já rondam por aqui e pelo carinho que claramente vocês dedicam a este espaço! Sucesso!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: