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Coisas do amor

em novembro 23, 2010

Durante alguns anos da minha adolescência, minha “bíblia” foi Fragmentos de um discurso amoroso, de Roland Barthes – livro que ganhei de uma queridíssima amiga aos 16 anos. Foi com ele nos braços que dormi várias noites e, até muito pouco tempo, era em meu criado-mudo que morava.

A obra é organizada como um dicionário de verbetes, os quais, refletindo expressões típicas do discurso amoroso, servem de “prólogo” para dissecar diversas situações enfrentadas por quem ama – e os sentimentos correspondentes. Para tanto, a fim de suscitar que o leitor pense profundamente sobre conteúdo e forma do amor, dialoga com outras linguagens como a filosofia, psicanálise e a religião.

Não tenho a menor pretensão – muito menos a capacidade – de discorrer sobre a importância de Fragmentos para a literatura moderna (o livro foi publicado em 1977) nem sobre a influência de Roland Barthes nos estudos da filosofia, lingüística e semiologia; tampouco quero entrar na discussão que ele propôs sobre o fim, ou não, do verso; a morte, ou não, do autor… apenas quero dizer – e isso digo com propriedade – que trechos daquele meu exemplar surrado e rabiscado em muito ajudaram uma garota irremediavelmente romântica a reconhecer em palavras o que parece impossível de se verbalizar. Ainda hoje, vários desses verbetes continuam pipocando em minha mente com freqüência…

Lembrei-me de um quando chorei sem parar durante todo o show de uma das minhas bandas preferidas, ou quando derramei outras tantas lágrimas sobre um texto lindo que uma pessoa muito especial me escreveu. Não era um choro sofrido – eu tentei explicar… – mas, como me ensinou Barthes, um “Elogio das Lágrimas”.

Em outra ocasião, enquanto olhava fixamente para meu Blackberry, torcendo para que isso fizesse a luzinha vermelha piscar – anunciando a mensagem pela qual esperava há dias – lembrei de outro verbete, “A Espera”: “Pois a angústia da espera, na sua pureza, exige que eu permaneça sentado numa poltrona ao pé do telefone, sem fazer nada”.

Nessas ocasiões em que as tais “coisas do amor” batem em mim, lembro-me de Barthes e sinto-me melhor porque percebo que certas experiências são universais e que, naquele exato momento, alguma outra pessoa, em algum outro lugar,  também deve estar se sentindo exatamente assim.

(Fragmentos de um discurso amoroso, Roland Barthes, 1977)

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Uma resposta para “Coisas do amor

  1. Ximena disse:

    Flora, sua linda!

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