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José e Pilar

em novembro 28, 2010

Um dia, Pilar perguntou a José: “o que queres que eu faça?” ao que ele respondeu: “continuar-me”.

Em outra ocasião, perguntaram a José: “o senhor já tem tudo: fama, um Prêmio Nobel, livros publicados…o que mais o senhor quer?” “Tempo. E vida.” foi a resposta.

“José e Pilar” poderia ser sintetizado com essas duas frases: a primeira, que denota a necessidade mútua que cada metade do casal tem da outra – em especial o quanto Saramago precisa de Pilar; e a segunda, que ilustra a incessante luta da vida contra o tempo – este inexorável.

José Saramago não acredita em Deus, ou em qualquer religião. Crê na vida como se apresenta agora, sem ilusões de que algo o espera quando aquela acabar. Daí a falta de esperança em algo para além do que se vê; não há eternidade, não há céu, não há segundas chances. E não poderia haver melhores razões para se querer fazer valer os momentos que restam, principalmente quando se sabe que, aos 83 (84 e 85) anos, já não serão muitos.

Alie-se isso à vontade de marcar presença no mundo – já que a morte nada mais é do que “já não estar aonde se esteve” – e o que se tem é uma linda batalha contra o fim. É a vontade de continuar presente e relevante para o mundo.

Nesta guerra, José não está sozinho, tem Pilar – aquela que tanto demorou a chegar – mas que, quando apareceu, tornou sua vida mais viva. Pilar catalisa e amplifica o tempo que lhe resta. Não haveria, portanto, nome melhor para ela: ela que o que o sustentou até o fim; que foi sua viga, sua energia e sua força; sua estrutura inabalável.

“José e Pilar”, o filme, é uma breve visita ao mundo dos dois: à recusa a se sucumbir ao cansaço; à fixação por se seguir adiante fazendo a diferença; às fraquezas de um – compensadas pelo outro – e à devoção que não se direciona ao divino, mas àquele que se ama. E é essa mesma devoção, que o diretor Miguel Gonçalves Mendes (só ele?) tem por Saramago – e inevitavelmente por Pilar Del Rio – que nos é descortinada ao longo de duas horas. E quão breve é este período quando vemos a riqueza que 85 anos de uma vida podem ter.

(“José e Pilar”, documentário, de Miguel Gonçalves Mendes, 2010)

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3 respostas para “José e Pilar

  1. Ana Luiza disse:

    você já foooooi!!!! e ai? recomenda?

  2. […] também é capaz de encapsular, em um número mínimo de palavras, idéias e conceitos tão difíceis de se explicar – como os melhores poetas (nem de pontuação ele precisa!). Ele molda os versos – ainda que […]

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