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Crescendo

em novembro 29, 2010

Crescer dói, é difícil e ninguém nos avisa isso. Crescer é um processo infinito; acaba só quando a vida termina.

Crescer é também enxergar as velhas coisas de outra forma, é saber atribuir nomes àquilo que sentimos desde sempre. É duvidar mais, porém saber aquiescer.

E é justamente o primeiro estirão da adolescência, aquele que começa a mudar tudo, o que acompanhamos em Se Eu Fechar os Olhos Agora, de Edney Silvestre (Editora Record, 2010), vencedor do Prêmio Jabuti 2010.

Ali, acompanhamos dois garotos, Eduardo e Paulo, que, após encontrarem, aos doze anos, o corpo brutalmente assassinado de uma prostituta, são catapultados, sem preliminares, para a vida adulta que os espera.

A partir da descoberta do corpo mutilado da bela Anita – no dia em que o homem pisou na lua – a trama converte-se em um thriller instigante, que se desenrola no interior do Rio de Janeiro. Os garotos, auxiliados por um velho torturado político, fazem de tudo para desvendar os motivos e culpados do crime. Para tanto, são obrigados a se deparar com temas e situações até então desconhecidas. Dia após dia, passam a fechar os olhos e se lembrar de mais e mais experiências vividas.

Edney Silvestre, jornalista, mostra em seu primeiro romance notável facilidade em imprimir na narrativa em prosa seu estilo pessoal: é direto, mas sofisticado; preciso, mas bem humorado. Ao misturar elementos históricos daquele Brasil conturbado e imprevisível – às portas do arrefecimento da ditadura militar – nos faz enxergar através dos olhos das personagens; assistimos com ignorância e estupefação aos fatos – e motivações – tão incompreensíveis.

Consegue também, de maneira delicada e sensível, incorporar as aflições e inquietações típicas dos quase adolescentes, fazendo também com que nos sintamos de volta àquela idade – quando tudo é novo, e por isso assustador e incerto.

Mas logo se vê que tais questionamentos são atemporais e universais, daqueles que pipocam em nossas mentes em dias nublados, quando fechamos os olhos e não conseguimos dormir; são momentos em que, seja qual for a idade, voltamos a ser crianças, indefesas e sonhadoras; são agonias furtivas, como as de Eduardo, o garoto comprido e sentimental, que desde cedo sente o que não sabe dizer:

“O muro em frente, as estrelas acima, os paralelepípedos a seus pés, tudo em torno dele perdeu a nitidez. Achou que já tinha passado por aquela situação, a mesma, igual, igualzinha, alguma vez no passado ou agorinha mesmo, e não entendeu o que era nem por que seus olhos tinham se enchido de lágrimas. Outra vez isso, pensou, outra vez essa…essa…o quê?, tomava conta dele como um aperto no corpo inteiro, como se algo estivesse machucado, ralado, ardendo. Mas lá. Dentro. Uma pontada. Não uma dor: pontada. Fina, fina, fininha. Doía fino. E levava tempo para passar. Ou, ao menos, amainar. Quando finalmente parecia sumir, deixava uma vontade de ficar quieto, de não rir, de não conversar, de não brincar, de não sair” (pp. 63-4).

 

(Se Eu Fechar os Olhos Agora, Edney Silvestre, Editora Record, 2010)

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2 respostas para “Crescendo

  1. Luisa Ferreira disse:

    Fló, adorei ver um post sobre esse livro, pois, apesar do Jabuti, muita gente ainda não o conhece. Eu amo o Chico (quem não ama?), mas não consigo concordar com o que fizeram. Parabéns pelo post (você tem razão sobre os questionamentos atemporais…) e, especialmente, pelo blog. Estou orgulhosa. Beijos, Lu.

  2. […] falamos dele aqui recentemente, mas, considerando que bons romances têm sido cada vez mais raros de se encontrar e, […]

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