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Ausência

em dezembro 1, 2010

Por muito tempo achei que a ausência é falta / E lastimava, ignorante, a falta. / Hoje não a lastimo

(Carlos Drummond de Andrade, “Ausência”)

As palavras de Drummond, acima, reverberam uma angústia que tenho há tempos. Uma contradição lógica tão banal, quanto inexplicável: quando sentimos falta de alguém, é a ausência que dói. Mas, se a ausência é a “não presença”, como é possível sentir o que não há? Como algo que falta – e não algo que existe – faz doer?

A explicação vem em seguida, no mesmo poema: “Não há falta na ausência / Ausência é um estar em mim / E sinto-a tão pegada, aconchegada nos meus braços / Que (…) ninguém a rouba mais de mim.

E, voilà, tudo se explica. O fato de a ausência ser o oposto da presença, não a torna oca, mas, o contrário: aquele que não está mais ali deixa algo, ao sair. Algo que denota o “não estar” – como uma assombração – mas que também carrega, em si, o que preenche o vazio da “não presença” de alguém. E esse conteúdo, que leva junto as lembranças – estas que têm o peso do mundo – é a saudade, que só quem sente é o que fica.

Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta

E lastimava, ignorante, a falta.

Hoje não a lastimo.

Não há falta na ausência.

Ausência é um estar em mim.

E sinto-a tão pegada, aconchegada nos meus braços

Que rio e danço e invento exclamações alegres.

Porque a ausência, esta ausência assimilada,

Ninguém a rouba mais de mim.

(Carlos Drummond de Andrade, Rio, 24/03/1982)

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