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Brutalmente lindo

em dezembro 14, 2010

Na época da Mostra Internacional de Cinema, disse em um post que um dos grandes prazeres proporcionados por aquele evento é o de se descobrir pérolas desconhecidas e deliciosas. Indo além dos filmes, há também preciosidades escondidas em vários outros lugares – pensem na delícia que é conhecer praias desertas, bares sem nome, baladas obscuras… – e, como não poderia deixar de ser, há ainda aqueles livros pouco falados, mas geniais, que por alguma razão cruzam nosso caminho.

Minha maior surpresa dos últimos tempos foi Alone With You, livro de contos de Marisa Silver que, confesso, não sei bem por que caiu em minhas mãos.

A autora não é exatamente desconhecida pela crítica e seu livro mais célebre, The God of War, foi um dos finalistas do Los Angeles Times Book Prize. Ela também já publicou contos – short stories – na The New Yorker e, agora, em 2010, compilou vários deles em uma coletânea que leva o nome da última história da obra, “Alone with you”.

A começar pela capa, um retrato da solidão por Edward Hopper, cada pedaço do todo merece ao menos um post. Por ora, falo sobre o mais brutal e marcante, “The Visitor”. Ali, acompanhamos Candy, uma jovem que trabalha em um hospital para veteranos de guerra aonde, diariamente, se depara com os mais escabrosos ferimentos; corpos destroçados e feridas que deixam cicatrizes indeléveis.

Nem o mais dilacerado dos corpos, porém, é capaz de abalar Candy, que é vista por seus colegas como uma estranha sem coração, mas que, no fundo, apenas se identifica com naturalidade com aquilo a que se acostumou desde cedo a lidar: feridas profundas de quem, quando criança, presenciou o declínio da vida da mãe, viciada em drogas, que jamais se conscientizou que a menina à sua frente era sua filha.

Tal naturalidade talvez tenha sido herdada da avó, a mulher que a criou e que, mesmo quando dava banhos na filha inconsciente, sussurrava canções de ninar sob o chuveiro; ou que, ao ouvir a filha esmurrar a porta, sem conseguir entrar para roubar mais algum objeto de valor, permaneceu sentada à mesa da cozinha, e disse à neta assustada: “só não queremos nenhuma visita neste momento”.

Através dessas personagens se vê, contudo, que a força para lidar com a tragédia é capaz de levar a vida adiante, mas não é suficiente para mitigar a dor. Esta, mesmo quando reprimida, volta como assombração – seja um fantasma que não deixa a velha dormir, ou um paciente que perturba a jovem.

Descrito assim, “The Visitor” pode até parecer um dramalhão novelesco, mas não é. Com a mesma sofisticação – e brutalidade – com que Chico Buarque cantou, em  “Pedaço de Mim”, sobre a dor da perda que se equipara a uma fisgada no membro que se perdeu, o conto (o livro todo, na verdade) também fala com incrível delicadeza sobre as feridas que a vida inevitavelmente traz, mas se diferencia ao dissecar com frieza e poesia as agonias e belezas dos processos de cicatrização.

 

(Alone With You, de Marisa Silver, Ed. Simon & Schuster, Abril de 2010)

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