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Vida real

em janeiro 12, 2011

Ontem começou a enésima edição do Big Brother Brasil e, nada melhor do que esse programa para exemplificar o culto atual à celebrização instantânea e o desprezo pela privacidade. Ali, “pessoas comuns” são espiadas ao fazerem nada e, como num passe de mágica, viram “celebridades” – por razões que a razão desconhece… tornam-se famosas pelas circunstâncias… simples assim.

Conquistar a notoriedade pelo mérito parece algo fora de moda hoje em dia…por que perder tempo se dedicando a algo – até efetivamente se tornar célebre naquilo – quando basta aparecer na Globo…?

Tudo isso é potencializado – e incentivado – pelo desejo de expor a intimidade a desconhecidos e o fascínio em bisbilhotar a vida alheia.

Em grande medida, isso também está presente em fenômenos como o Facebook.

Pena que no filme recente sobre o “face”,  A Rede Social (“The Social Network”, de David Fincher) – uma ótima história, com diálogos espertos e frenéticos e boas atuações – ao se priorizar apenas a intriga entre os fundadores do site e o “caráter” de Mark Zuckerberg, deixam-se de lado as questões mais profundas e interessantes relacionadas ao Facebook, como as razões e implicações da hiper-conectividade, a superficialidade das relações e a necessidade de se expor/compartilhar/observar tudo.

E, para além do filme, as tentativas de se entender tais aspectos tendem a ser rasas demais…as pessoas parecem se contentar com a crença de que existem “mundos” apartados dos demais – mundo digital, mundo das celebridades, etc. – com funcionamento e valores próprios; regras intrínsecas e inquestionáveis. Assim, medir comportamentos mantidos naqueles com a “régua moral do mundo real” seria inadmissível (por que questionar o compartilhamento de toda e qualquer idéia/foto/opinião/frustração/alegria quando todos assim o fazem e a tecnologia permite…?).

Lembro-me que, no auge da crise financeira dos últimos anos, muito se falou da dicotomia entre as esferas financeira e “real” da economia. É como se houvesse um vão separando uma da outra, mas, ainda assim, fosse distância insuficiente para evitar o “contágio” dos problemas surgidos na primeira.

Hoje, dizem também que o Facebook e o Big Brother comporiam a “esfera digital”, que é igualmente contraposta à “real”. Contudo, mais útil talvez fosse questionar até que ponto, nos dias de hoje, quando se “coloca na rede” – ou na tv – tudo aquilo que de mais privado alguém pode ter, tal distinção faz sentido; ou se o que há de fato, para além dessa profusão de esferas, mundos e dimensões, é a exposição multimídia de uma crise íntima e pessoal, de que sofrem os indivíduos atualmente.

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