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Acima do cult e do hype

em janeiro 20, 2011

De repente, sair esbravejando ” É vergonha o Belas Artes fechar” virou moda. A síndrome de alternativo mostrou suas garras e era só falar que você não gostava da ideia do fechamento do cinema que o pessoal já queria cópia autenticada dos 25 últimos canhotinhos de ingresso que você tinha do lugar, senão “tá posando de engajado”. Acho tudo isso uma grande bobagem…. ninguém precisa ser cinéfilo pra reconhecer a importância histórica de um cinema que, em mais de 50 anos, “viveu” a ditadura, o cinema novo, a retomada e tudo mais.

Foi sob essa bobajada  toda que aconteceu o Octogésimo Noitão do Cine Belas Artes  no dia 15 de janeiro. A histeria de uma possível despedida, aliada ao bafafá da onda cult fez com que os ingressos esgotassem ainda na quinta-feira. Por volta das onze da noite, milhares de camisas xadrez, barbas por fazer, cabelos repicados e óculos de aros grossos fumavam seus cigarros e negociavam ingressos debaixo de  lua cheia, apinhados na entrada do número 2423 da Consolação.

Ingresso garantido com antecedência, eu decidi com os amigos que o “esquenta cinéfilo”  deveria ser feito num lugar um pouco mais cômodo que a calçada. Sábia decisão. Fomos ao Sonique, ouvimos Strokes e Radiohead e aproveitamos o ambiente tranquilo do começo da noite dos “moderninhos” (como diriam os guias de sexta-feira, por aí).

A “Sala 4 -Aleijadinho” começaria com o filme surpresa. Chegamos em cima da hora e acabamos na primeira fileira. Pode até não ser o melhor lugar para uma sessão comum, mas confesso que não achei ruim ver Fernando Pereira e Léo Mendes, organizadores do noitão, mostrando o quanto gostam daquele lugar, daquele evento, daquela arte… sem rótulos nem babaquices. Depois de alguns xavões reconfortantes como “não é um ‘adeus’, é só um  ‘até breve'” e “hoje é dia de festa, não queremos clima de velório”, uma película, daquelas que o cinema digital nem imagina, começou a ser projetada. Maus Hábitos, de Pedro Almodóvar, iniciava a sessão especial que, seguindo a programação especial do mês todo, fazia um apanhado dos filmes que marcaram o cinema, ou pelo menos a fase sob a curadoria de André Sturm. É, eu gosto de Almodóvar e curtí muito o filme… sem travestís, nem Gael, nem Penélope, a imagem de um convento de drogadas resulta em um humor surreal e provoca a relação que nós temos com certos símbolos e morais.

Depois veio Nikita. O amigo do lado já reclamava “Mimimi Cinema Francês” e só sossegou quando ouviu todo aqueles estampidos e viu muito sangue na tela. Tem vários lances geniais do Luc Besson mesmo. Assumo que prestei mais atenção nos cortes e planos (estava quase bocejando quando, num corte brusco, ví a cena “do ponto de vista da bala disparada” e rolou aquela despertada). A história em si não me prendeu muito, mas eu já sei que não tinha condições de avaliar muita coisa.

Fechamos a noite com Cães de aluguel. Muito mais sangue e tiros no melhor estilo Tarantino. Eu juro que me esforcei bastante, mas fui à lona. Pesquei várias vezes e os flashbacks não lineares ficaram ainda mais confusos depois de 24horas sem dormir. Óbvio que não perdi os diálogos geniais desses criminosos que acham um absurdo não dar gorjeta para garçonete, porque quem trabalha duro precisa sustentar a família com o dinheiro.

Às sete da manhã de sábado já estava em casa. Nessa semana começou a tramitar o tombamento do Belas Artes como patrimônio da cidade. Talvez já não seja tão hype falar disso…. mas espero que ele permaneça lá durante muito tempo (mesmo que continue exibindo Medos Privados em Lugares Públicos eternamente)

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3 respostas para “Acima do cult e do hype

  1. Flora disse:

    Tenho dúvidas se seu programa de sábado a noite não foi melhor que minha empreitada no Anhembi…
    Adorei o post, Vivs!

  2. Matheus Mlot disse:

    Eu não sosseguei depois dos tiros, não. Continuo fazendo mimimimi filme francês. E pior,Nikita é FILME FRANCÊS DE SESSÃO DA TARDE! hehehehe

  3. Idol disse:

    Achei muito bom o texto, Vi.

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