re.verb

cultura, crítica e tudo o mais

No lugar

em fevereiro 1, 2011

Ele é um astro de Hollywood, é jovem, lindo, tem uma um Ferrari, e mulheres atiram-se às pencas sobre seus pés. Qualquer suposição de que atingiu sucesso e sossego na vida, no entanto, mostra-se incoerente com o vazio que sente Johnny Marco (o charmosíssimo Stephen Dorff) em Um Lugar Qualquer (Somewhere), de Sofia Coppola.

É justamente essa disparidade entre a percepção – e admiração – dos outros e sua insatisfação pessoal a tônica do filme; apesar de sempre cercado de beldades e luxos, Johnny não se encontra em lugar algum.

Essa solidão na abundância não se ameniza com sexo, drogas e rock’n’roll, tampouco com fama e regalias; há apenas um “lugar” onde Johnny se acha e se completa: o lugar – qualquer – em que esteja com sua filha, Cleo (Elle Fanning).

A repentina proximidade com Cleo – de quem a mãe resolveu “dar um tempo” – traz a Johnny não apenas uma felicidade inesperada, como também o faz enxergar a superficialidade e insuficiência de sua vida até então.

À medida que a vida de Johnny, na presença de Cleo, parece ganhar cor e fazer mais sentido, percebe-se que o querer bem a alguém e a intimidade que isso acarreta trazem, por um lado, uma satisfação mais profunda e duradoura do que qualquer bem consumível; por outro, ao se permitir gostar de alguém, a ausência causada por este pode se tornar praticamente insuportável.

Na linha de outros (bons) filmes de Sofia, especialmente Lost in Translation, este é também introspectivo e sem excessos. Os diálogos contam menos que o contexto geral da cena, a trilha sonora (ótima, por sinal) é tão importante como o silêncio. Há belas e memoráveis cenas, como a de Johnny e Cleo na piscina ensolarada de um hotel – quando tudo parece estar do jeito que deve ser –; e outras igualmente boas, porém aflitivas, como aquela em que Johnny é chamado a fazer um molde de sua cabeça (!) e permanece imóvel, com todo o crânio coberto por uma massa branca e só ouvimos o som ritmado de sua respiração.

Na cena final, assim como em Lost in Translation, em que Bob (Bill Murray) sussurra algo inaudível no ouvido de Charlotte (Scarlett Johansson), em Somewhere também fica uma dúvida no ar. O que se sabe, contudo, é que qualquer um, em qualquer lugar, uma vez tendo se deparado com a perspectiva de uma vida mais feliz, ou fará de tudo para voltar àquele estado, ou transformará a lembrança em frustração, mas, seja qual for o desfecho, essa pessoa jamais será a mesma.

Filmaço.

 

(Somewhere, de Sofia Coppola, 2010)

Anúncios

Uma resposta para “No lugar

  1. Michelle disse:

    Fantástico Florita!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: