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Por fora, bela viola…

em fevereiro 21, 2011

Duas coisas que vi neste fim de semana me deixaram um pouco preocupada: a declaração do Alexandre Matias, no Caderno 2 de domingo do Estadão (“Sem Medo de Ousar – Radiohead e o artista do século 21”, em impressão digital*), sobre Radiohead, e um comercial sobre um show do U2 a ser exibido em 3D no final de março nos cinemas.

Em relação à primeira, o autor terminou o texto (que exaltava a banda como um dos maiores fenômenos do século 21) com a seguinte frase: “E sabem que, para o artista do século 21, arte e mercado têm de ser vistos como se fossem a mesma coisa”.

Me chamem de purista, antiquada, pentelha, o que for, mas discordo veementemente do que foi dito.

Primeiro, adianto que, pessoalmente, Radiohead não é meu som favorito. Isso não afasta, contudo, meu reconhecimento em relação à banda que, concordo com a matéria, possui uma das mais eficazes estratégias de inserção e divulgação de músicas no mercado.

Importância em termos de marketing, no entanto, não garante música boa. De novo, não estou de forma alguma questionando a qualidade musical de Radiohead, mas acho importante não confundir as bolas; se publicidade e projeção equivalessem a qualidade, Lady Gaga seria uma virtuose.

Radiohead pode, sim, ser uma das bandas mais importantes do século 21 tanto em termos musicais (concordem, ou não), como mercadológicos (praticamente inquestionável), mas uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Música boa, para mim, é aquela que se escuta e, mesmo sem saber o nome da banda, nem por que apareceu à sua frente, causa uma experiência singular – seja prazerosa, contemplativa, de identificação com o que se ouve, conclamatória, instigante…diz respeito, essencialmente – e exclusivamente – ao conteúdo musical.Isto me leva ao outro evento que arrepiou minha nuca no domingo: a chamada publicitária apoteótica, em meio aos trailers em um cinema, para o show cinematográfico – em 3D! – do U2.

Outra vez, esclareço: sou a favor de qualquer avanço tecnológico que acrescente algo àqueles que executam, ou escutam música; digo também que não tenho nada contra o U2 e sei que shows desta banda, e de tantas outras, são invariavelmente grandiosos e “modernos”: há telões, explosões, efeitos especiais, fogos de artifício…

A atmosfera circense, em si, não é preocupante, no entanto, não pude deixar de questionar até que ponto não estamos nos acostumando a confundir música com seu invólucro; a apreciá-la apenas num contexto multímidia – esquecendo das experiências simples como apertar o play e simplesmente ouvir (sem auxílio de qualquer outro recurso pirotécnico).

Em resumo, acredito que o excesso prejudica a essência; e quando esta se perde, não há marketing ou óculos 3D que a resgate.

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