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Uma pedra no caminho

em fevereiro 21, 2011

There must be some fucking chemical (chemical in your brain) that makes us different from animals (makes us all the same)”.

Este é o “prólogo musical” de 127 Horas (127 Hours) e a tônica do filme até o final.

Como na música, o que está em jogo é o equilíbrio entre dar vazão a viscerais instintos de sobrevivência e, ao mesmo tempo, lançar mão da racionalidade mais fria e calculista que o ser humano pode ter.

127 Horas se inicia com um frenesi pictórico semelhante àquela profusão de takes de tons quentes de Quem Quer Ser Um Milionário? – do mesmo diretor, Danny Boyle. As cores terrosas e avermelhadas permanecem; o turbilhão de imagens e pessoas retratadas, contudo, cessa no instante em que Aron Rolston (James Franco, espetacular) se vê sozinho, preso em um cânion de Utah, com sua mão “between a rock and a hard place”, como o título do livro que deu origem ao filme.

Curiosamente, ainda que três quartos deste se dê em uma situação praticamente estática, de clausura agonizante, 127 Horas poderia ser rotulado como filme de ação; há, ao longo dos 90 minutos de projeção, a luta incessante – e física – pela sobrevivência. (Há ação justamente na batalha contra a iminência da desistência e da insanidade causada pela impotência para o movimento.)

Neste mesmo período, há também uma carga dramática e sentimental bastante intensa, na medida em que Aron, incerto de que sobreviveria, passa a relembrar – em flashes que servem como respiros à claustrofobia – momentos e pessoas marcantes em sua vida.

A fim de manter a sensatez – “don’t lose it, Aron. DO NOT LOSE IT, ARON” diz a si mesmo – grava declarações, relatos e piadinhas em sua câmera e esta acaba sendo – como a bola Wilson, em O Náufrago – seu ponto de conexão com a realidade e a lucidez. Em determinado momento, diz: “esta pedra esteve me esperando por toda a minha vida” e, assim, encara a pavorosa situação como uma provação a mais; um chamado a repensar e questionar o que viveu até então, para que consiga viver melhor dali pra frente (seja pelo tempo que for).

Se comparado aos outros filmes concorrentes ao Oscar deste ano, 127 Horas não é o mais grandioso e é possível que não seja o melhor; mas, sem dúvida, em um tempo de mesmice, previsibilidade e fórmulas prontas, é o mais inusitado e original. É um filme que foge às regras, que vai além, e, só por isso, – e pela atuação de Franco – já vale (muito) a pena.

(127 Horas, 127 Hours, de Danny Boyle)

 

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