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Balanço do Oscar

em fevereiro 28, 2011

 

E o Oscar foi para O Discurso do Rei. O filme, sobre o Rei George VI e sua luta contra a falta de confiança para ser rei e para falar, conta com as atuações da trinca de atores (Colin Firth, Geoffrey Rush e Helena Bonham Carter) como os pontos mais altos.

O filme não inova – seja na forma, ou nos “dilemas existenciais” retratados – mas conquista o espectador pela simpatia e humanidade com que as personagens expõem seus problemas e lidam com eles. No entanto, sobra pouco para além de um filme tocante – quase fofo – e de atuações memoráveis; o enredo é bom, mas limitado e previsível; a direção (que também ganhou o Oscar) é correta – especialmente quanto à condução dos atores – mas absolutamente tradicional – diferente , por exemplo, de Cisne Negro e A Rede Social .

Dessa forma, a despeito de o filme que “mais toca o coração” ter ganhado o principal prêmio da noite, a impressão que ficou da safra 2010, no entanto, foi de que, em todos os indicados ao prêmio de melhor filme, sobrou esforço, mas faltou substância.

Em Cisne Negro, o excesso prejudica a essência. Assim, como em Réquiem Para um Sonho, do mesmo diretor, Daren Aronofsky, a estratégia de arrebatar o espectador por meio de cenas fortes e raramente sutis causa, decerto, uma sensação de estupefação – é difícil não assistir a esses filmes sem sair da sessão com a impressão, quase física, de que um caminhão passou por cima de nossos corpos –; mas isso faz de um filme um grande filme? Há quem acredite que sim. Para outros, passado o torpor imediato, sobra apenas certa ressaca e a decepção de não se saber ao certo o que aconteceu enquanto a overdose pictórica os enebriava.

A Rede Social é inovador na medida em que integra a linguagem e o formato do filme ao próprio conteúdo tratado: a rapidez com que as coisas se multiplicam e se complicam no meio digital.

Mais uma vez, contudo, para além do atordoamento causado pelo frenesi de diálogos complicados, o conteúdo – que potencialmente seria capaz de trazer uma crítica feroz à sociedade contemporânea – é ralo, se resumindo tão somente à intriga dos bastidores da criação do Facebook.

127 Horas, por sua vez, é original por ser um filme “de aventura” protagonizado por um herói preso entre uma pedra e um cânion. O que poderia ser monótono se torna imprevisível pela variedade de intervenções: sejam “mini videoclips” de momentos reais de imaginários, ou o desenrolar da própria situação em si.

No entanto, apesar de uma atuação assustadoramente crível de James Franco, também fica aquém do que poderia ser, na medida em que a personagem em si não é explorada em todo seu potencial – não há crises existenciais, não há dúvidas, não há momentos de fraqueza…

O Vencedor é um típico filme americano acima da média. Americano não apenas por retratar a mentalidade típica do homem médio dali: uma certa passividade na forma de se lidar com a vida, ao mesmo tempo em que se crê no American dream de se tornar alguém “famoso” – mais especificamente, o sonho de toda uma família projetado no único filho promissor –; mas também por não dissociar drama de entretenimento (a grandiosidade das lutas; todo sangue, suor e lágrimas).

É acima da média porque trata de algo trivial como sexo, drogas e esporte de maneira mais complexa e profunda do que a princípio se esperaria, transferindo para a família americana o peso do fracasso de certos filhos promissores.

Bravura Indômita é um típico filme dos Irmãos Coen, o que, por si, já garante certa originalidade. No enredo, em que uma garota de 14 anos contrata um matador de aluguel para vingar a morte do pai, dilemas morais inexistem, e talvez justamente por isso, sentimentos humanos – os mais contraditórios – aflorem sem nenhum pudor. Dentre todos, talvez seja o mais contido; apesar das personagens caricatas, não há ali nada mais do que deveria haver. Por isso, em linha com aquilo a que se propõe, não é revolucionário nem grandioso, mas é um bom filme.

Enfim, todos os filmes são bons, têm grandes momentos e valem, sim, a pena. Nenhum, contudo, é excepcional.

Assim, que venha 2011.

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Uma resposta para “Balanço do Oscar

  1. Vitor disse:

    ainda não vi todos filmes, faltam 127 horas, Bravura Indômita e O Vencedor…dos demais, o que eu mais gostei foi “A Origem”…

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