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Papai-mamãe

em março 3, 2011

O filme se pretende ousado, abusa de cenas sexuais para causar impacto, mas, no final das contas, é a velha história do patinho feio, da cinderela, da menina que cai, se levanta, cai de novo, mas vive feliz para sempre; é o clássico roteiro de superação.

O enredo, real, é conhecido: uma menina de classe média, Raquel, rejeitada no colégio e em sua casa, resolve se tornar uma garota de programa e mudar de nome – nasce Bruna.

Esta, de repente se torna uma garota “popular”, agrada todos com sua cara  “de surfistinha”, ganha dinheiro e, com bom faro para os negócios, cria um blog para aumentar sua clientela e compartilhar seu dia a dia. Resultado: vira a prostituta mais famosa do Brasil.

Às avessas, Bruna Surfistinha é comparável a Cisne Negro. Em ambos, há meninas criadas em ambientes opressores e o doloroso – e atabalhoado – processo de crescimento e entrada na vida adulta. No entanto, nem Nina, nem Raquel atingem a maturidade – ainda que acreditem o contrário.

Diferentemente, porém, Bruna Surfistinha é raso à beça. O que poderia ser uma interessante viagem às agruras psicológicas de uma menina que, mesmo com um futuro promissor, deliberadamente decide se vender para “não depender de mais ninguém”, é apresentado de maneira oca, sem muito conteúdo além dos clichês: a menina incompreendida que resolve dar o troco no mundo (“good girl gone bad”), o deslumbramento com o repentino glamour, a percepção de que o amor de uma vida pode ser quem menos se espera, e por aí vai.

Ok, não sejamos tão drásticos: o filme não é de todo mau. A trilha sonora, por exemplo, é boa… tem Radiohead (a clássica “Fake Plastic Trees”), Holger (“Toothless Turtles”), o pancadão “Copo de Vinho” de DJ Marlboro, além da música tema do filme, “They Don’t Make Mistakes”, composição original de André Lucarelli, com Tejo Damasceno – que é ótima:

 

Deborah Secco também se mostra esforçada no papel – ainda que, a meu ver, sua personagem mais rebelde até hoje tenha sido Carol, de Confissões de Adolescente.

Para completar, o filme pode ser considerado acima da média por causar um certo desconforto com toda a crueza – e insensatez – da situação retratada (incontáveis pessoas saíram da sessão a que fui) e por ter ao menos um potencial para suscitar questões. Pena que um filme potencialmente bom não seja bom o bastante.

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