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Um amor só deles

em março 9, 2011

 

Ela, uma garota magrela e estranha, saiu de casa para o mundo e se descobriu uma artista completa: poeta, cantora – uma das rainhas do rock – desenhista, escritora, engajada… Ele, também jovem e esquisito, se sabia artista desde o princípio; também pintou, desenhou e acabou se tornando um dos mais corajosos e polêmicos fotógrafos de todos os tempos.

Ambos se encontraram, se salvaram mutuamente e se amaram incondicionalmente até o fim, quando, mesmo separados, estiveram juntos.

Essa é a história de Patti Smith e Robert Mapplethorpe, em Just Kids (lançado em português como Só Garotos, Companhia das Letras).

Tudo se inicia com Patti, antes mesmo de completar seus vinte e poucos anos, sem lenço nem documento – muito menos um tostão no bolso – se lançando em Nova Iorque. Algo lhe dizia que ela era diferente dos demais – a paixão pelos livros, a adoração por Rimbaud… – mas a garota ainda não conseguia formatar seus anseios.

De repente, como por um capricho do destino, encontra e reencontra um garoto de cabelos cacheados que lhe salva de algumas encrencas e lhe descortina uma vida até então desconhecida, a vida de artista.

Ambos, inseparáveis desde aquele momento, prometem jamais sair de perto um do outro até que ambos estivessem prontos pra seguirem sozinhos.

"we used to laugh at our small selves, saying that I was a bad girl trying to be good and that he was a good boy trying to be bad. Through the years, these roles would reverse, then reverse again, until we came to accept our dual natures. We contained opposing principles, light and dark"

 

Tal história não seria muito diferente de tantas outras paixões juvenis se não tivesse começado em pleno summer of love, se a locação não tivesse sido o histórico Chelsea Hotel, se a mocinha não fosse tão amorosamente devota da arte e se o mocinho não resolvesse chocar a sociedade com seu trabalho ou não tivesse sérias dúvidas acerca de sua sexualidade.

Justamente por tais razões, a relação desses jovens, descrita errática e honestamente por Patti, é inclassificável. É, sim, uma bela história de amor, mas retrata aquela espécie de amor único, excêntrico, que transcende convenções e se amolda exclusivamente aos dois.

É curioso como a narrativa de Patti dispensa qualquer detalhe que não importe para a composição da história do “casal”. Outros amantes, fofocas de bastidores (com Janis Joplin, Jimi Hendrix, Andy Warhol, etc) e outros detalhes sórdidos não têm a menor relevância quando comparados às tentativas de se explicar os sentimentos inexplicáveis que Robert gera em Patti – e vice-versa.

Portanto, longe de ser convencional, a história retrata uma simbiose visceral, um amor transcendental, por vezes chamado de namoro, por outras de amizade, mas que, até o fim, foi a pilastra que segurou cada um em seu prumo e fez o futuro – e a arte – ter sentido.

Assim como uma obra de arte revolucionária, no entanto, esse sentimento original, sem precedentes ou exemplos a serem seguidos, precisou ser descoberto e decifrado por cada um dos dois.

Dessa forma, entre poemas, polaróides, rabiscos e acordes; entre beijos e carícias trocados entre eles e com outros, amaram-se e foram do mundo até o último flash.

 

(Patti Smith, Just Kids, 2010 – em português, Só Garotos, Companhia das Letras).

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