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Ilha Desconhecida

em março 14, 2011

 

José Saramago é daqueles autores que parecem domesticar as palavras; é como se ele ordenasse e elas dessem piruetas, correndo de um canto a outro, até se organizarem do modo exato para dizerem sintética e plenamente aquilo que ele queria.

Saramago também é capaz de encapsular, em um número mínimo de palavras, idéias e conceitos tão difíceis de se explicar – como os melhores poetas (nem de pontuação ele precisa!). Ele molda os versos – ainda que em prosa – como os palhaços torcem e retorcem aquelas bexigas compridas em festas infantis: quando menos se espera, faz-se um poodle, uma espada; a mensagem aparece.

Faz mais ou menos cinco anos que, diante da minha angústia em relação a qual caminho profissional seguir, uma pessoa querida me disse apenas: “você não precisa decidir agora; mas no meio tempo, leia este livro”. Era O Conto da Ilha Desconhecida.

Neste conto pequeno e precioso, o que temos é um sujeito que, resoluto, bate à porta do rei (mais precisamente, à “porta dos obséquios”) e não arreda o pé dali, por três dias, enquanto não recebe um barco.

“E tu para que queres um barco, pode-se saber, foi o que o rei de facto perguntou (…) Para ir à procura da ilha desconhecida, respondeu o homem, Que ilha desconhecida, perguntou o rei disfarçando o riso, como se tivesse na sua frente um louco varrido, (…), A ilha desconhecida, repetiu o homem, Disparate, já na há ilhas desconhecidas, Quem foi que te disse, rei, que já não há ilhas desconhecidas”.

Mais tarde, ao capitão, quando perguntado se sabia navegar, ele responde “Aprenderei no mar” e, para tanto, pede um barco que “que eu respeite e que possa respeitar-me a mim”.

Além do barco, para ir à procura de uma ilha onde nunca ninguém tenha desembarcado, o rapaz ganha a companhia da mulher da limpeza do palácio do rei, que, ao presenciar a história toda, resolve embarcar na jornada – e olha que ela sai decidida, sai pela “porta das decisões” do palácio.

Sem me prolongar muito na história – que, recomendo veementemente, seja lida, e relida inúmeras vezes – hoje vejo que o que aquela pessoa querida gostaria que eu enxergasse com o livro – para além dos quase lugares comuns de que cada um deve trilhar seu próprio caminho e de que a descrença alheia, no final das contas, pouco importa –: é que essa busca de fato leva tempo.

E não poderia ser diferente, já que a procura pela ilha desconhecida é a procura por si mesmo:

“(…) quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou eu quando nela estiver, Não o sabes [?], Se não sais de ti, não chegas a saber quem és (…) Que é necessário sair da ilha pra ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos de nós”.

 

Bora tacar nossos barquinhos no mar?

(O Conto da Ilha Desconhecida, José Saramago, Companhia das Letras)

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