re.verb

cultura, crítica e tudo o mais

Sem empolação

em abril 1, 2011

É de dar dó quem se leva muito a sério. Mais ainda, quem confunde empolação com credibilidade e profundidade. Isso porque, quem se preocupa em levar tudo a ferro e fogo não apenas se diverte menos, como gasta tanta atenção em manter a postura que deixa passar sutilezas e ironias mais profundas do que aquilo que se extrai dos meros formalismos.

Quem disse que da graça não podem surgir questões essenciais? Por que o humor seria algo menor?

Se sustentar um argumento tem a função última de convencer o leitor – nada mais é que um processo de sedução – por que não ser leve, agradável? (Você chamaria alguém para sair sem se preocupar minimamente em ser simpático; sendo um chato?)

Se, por um lado, alguns tendem a achar que o grau de dificuldade de compreensão de um argumento é diretamente proporcional à sua relevância; outros são hábeis o bastante para serem sucintos, inteligentes, simpáticos e acessíveis, mesmo quando transmitem os mais complexos conceitos e idéias.

Exemplos do primeiro grupo há vários: acadêmicos com seu eterno tom doutrinário, políticos, burocratas… advogados, então, nem se fale! Representantes do outro grupo são mais raros… vamos a um? H.L. Mencken.

Este foi um dos maiores jornalistas dos Estados Unidos. Foi também crítico, filólogo (sua obra mais conhecida é The American Language, um estudo sobre a diferença entre a língua inglesa e a “americana”), ensaísta e, acima de tudo, provocador.

Seu tom informal, mas sofisticado; emocional, sem deixar um raciocínio pela metade, imprimia em seus textos uma vitalidade difícil de se comparar. Concorde ou não com suas opiniões – muitas vezes radicais e quase sempre politicamente incorretas (“A fé pode ser definida em resumo como uma crença ilógica na ocorrência do improvável” – em “O Crédulo” –; fidelidade é apenas a falta de coragem para trair – em “A Mulher Libertina” –) – é difícil não se sentir incitado por seu texto; impossível se entediar.

Alguns de seus melhores ensaios e críticas – extraídos de A Mencken chrestomathy e A gang of Pecksniffs – estão compilados no Livro dos Insultos (Cia das Letras, tradução, seleção e posfácio de Ruy Castro – que, como poucos, consegue reproduzir a riqueza do texto original).

Ali, Mencken fala sobre quase tudo: o homem, as mulheres, religião (ou a falta de), moral, cultura (Joseph Conrad, Edgard Allan Poe, Mark Twain, Beethoven, Strauss são alguns de seus objetos de reflexão)…

Algumas das mais valiosas pérolas falam sobre a própria escrita, sobre o processo de criação literária. “Sobre estilo” é genial:

“A essência do grande estilo é que ele não pode ser reduzido a regras – é uma coisa que vive e respira, com algo de demoníaco – que se ajusta a quem o usa como a pele ao resto do corpo (…) No dia seguinte ao encontro com uma nova garota, o estilo brilha e dá pulinhos. Se seu autor comeu demais, ele tende a relaxar (…).”

Preciosa também é “O Escritor Trabalhando”, em que afirma que aquele escreve “emitindo gritos de desafio”, com “anseio de fazer barulho”.

O Livro dos Insultos é, em suma, o antídoto perfeito para a crença de que a falta de conteúdo se cura com empolação. Não. A falta de conteúdo se cura com inteligência e cultura. E estas, ditas com graças, curam qualquer coisa.

 

(Livro dos Insultos, H.L. Mencken, Cia das Letras)

* Update zás-trás: Achei uma coincidência divertidíssima o fato de amanhã começar o Lollapalooza e, hoje, junto com este post, ter sido publicada uma matéria no Estadão em que se diz o seguinte sobre a expressão que dá nome ao festival: “O polemista, intelectual e jornalista norte-americano H. L. Mencken (1880-1956) escreveu que a expressão teria sido usada pela primeira vez nas lutas de boxe, na sua época, para descrever o nocaute – mas não existem provas disso.” (“Lolla nos Andes”, de Jotabê Medeiros)

Anúncios

2 respostas para “Sem empolação

  1. Juliana Mello disse:

    Vc. empresta o livro? Nada folgada…
    Queria registar que o blog está cada vez melhor! Parabéns. Passo sempre por aqui. Beijos.

  2. […] “a nova poesia”, H.L. Menken (velho conhecido do re.verb) diz o […]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: