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Nas profundezas do bosque de Oz

em abril 4, 2011

“Escrevo artigos não porque me pedem, mas porque me sinto tomado de ira. (…) Escrevo a partir de um senso de injustiça e da minha revolta com isso. Mas só posso escrever um artigo desses quando estou cem por cento de acordo comigo,  o que não é minha condição normal – em geral concordo parcialmente comigo mesmo e sou capaz de me identificar com três ou cinco diferentes pontos de vista sobre o mesmo assunto. Nesse caso escrevo uma história, na qual diversos personagens podem expressar visões distintas sobre um mesmo tema”.

Quem disse isso foi Amós Oz, em entrevista feita em 1994 e publicada no ótimo As Entrevistas da Paris Review (sobre o qual já falamos aqui).

Entender sua obra De repente, nas profundezas do bosque (uma “narrativa em prosa” – como prefere nomear o gênero “ficção” – publicada pela Companhia das Letras) fica mais fácil a partir da declaração acima.

Nesse livro precioso, tem-se a fábula de um vilarejo que, embrenhado na escuridão e no silêncio, não abriga animal algum. Os mais velhos, tomados pelo receio de falar sobre o assunto, raramente comentam sobre a noite em que todos os bichos sumiram. Os mais jovens, criados em um mundo habitado exclusivamente por humanos, são ensinados a acreditar que cães, gatos, pássaros e moscas são lendas.

Mais, há rumores de que os animais foram, há muito tempo, levados pelo “demônio da montanha”, Nehi. Por essa razão, “Nunca, mas nunca mesmo, de maneira alguma, mas de maneira alguma de verdade, diziam os pais aos filhos, que nunca e de maneira alguma se atrevessem a sair de casa depois do escurecer”. Adentrar ao bosque, então, nem se fale. Proibido. Perigoso.

Não se toca no assunto e, os poucos que se atrevem a questionar a inexistência dos animais, são considerados loucos, são alvos de gozação. Pode ainda ser pior: o pequeno Nimi, por exemplo, o menino de nariz escorrendo, sempre alvo de chacota, que sonhava com bichos e um dia sumiu no bosque, voltou avariado; voltou contaminado com a “doença do relincho” – não falava mais, só ria e relinchava. Tornou-se uma aberração, ninguém se atrevia a chegar perto dele – poderia contaminar quem se aproximasse.

Por essa razão, o perigo que o bosque e a escuridão traziam, o medo pairava pelo vilarejo: “E apesar disso todos se lembravam muito bem, em silêncio, do que era melhor não lembrar. E havia certa necessidade de negar tudo, negar até o próprio silêncio, e zombar de quem, apesar de tudo, lembrava: que se calasse. Que não falasse”.

Mas, Mia e Mati, duas crianças curiosas, lembravam de algo que viram num certo dia – um peixe? Como assim, um peixe? – e, contrariando a ordem local, resolveram não esquecer. Decidiram, então, descobrir o mistério daquele lugar e do sumiço dos bichos.

É dessa forma lúdica, repleta de lírica e fantasia, que Amós Oz – um dos mais renomados escritores israelenses contemporâneos – tangencia, nesse adorável livro, questões humanas fundamentais, como a discriminação e a tolerância; a relação entre homem e natureza; a angústia de se ter que pertencer a um grupo; o questionamento de regras e a relação com o dogmatismo, ou obscurantismo.

Assim, justamente por lidar com todos esses temas de maneira hábil e não impositiva – não há sermão, nem bonzinhos e mocinhos – a declaração que iniciou este texto faz sentido: diversos pontos de vista sobre um mesmo assunto são postos em xeque. A moral da história quem tira é o leitor.

 

(De repente, nas profundezas do bosque, de Amós Oz, Editora Companhia das Letras)

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Uma resposta para “Nas profundezas do bosque de Oz

  1. […] Pensante 2.0, resenhou Olhai os lírios do campo, de Erico Verissimo. A Flora, do blog re.verb, falou sobre Nas profundezas do bosque, de Amós […]

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