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The Show

em abril 6, 2011

Sabe quando o céu está bem nublado, mas, por alguns instantes, raios de sol escapam das nuvens mais nítidos do que nunca, como feixes de luz de holofotes? Sempre achei isso uma coisa meio divina.

E foram luzes como estas que, em meio à escuridão, iluminaram Matt Berninger na primeira música do show de ontem, “Runaway“. Um bom presságio? Talvez.

Falar que o show do The National foi um dos melhores shows a que já fui na vida diz pouco a quem não estava lá. Porém, tenho certeza, aos que estiveram, diz tudo.

Certa vez, ouvi que um crítico descobriu o sentido da palavra “sofisticado” ao ver a apresentação de certo jazzista. Pois bem, ele não viu The National.

Matt Berninger, tímido de tudo, é capaz de cativar a platéia sem fazer nenhuma gracinha; sem gestos mirabolantes, ou atitude rock’n’roll. Ele, impecavelmente bem vestido, inteiro de alfaiataria preta, simplesmente empunha o microfone e canta maravilhosamente bem letras maravilhosamente bem escritas – que beiram a poesia. E isso é o bastante.

É incrível, aliás, como a banda consegue transformar uma apresentação de rock em algo tão intimista. Mal se ouviam conversas na platéia. É como se cada um ali sentisse que Matt, os guitarristas e irmãos Aaron e Bryce Dessner, e o resto da entrosadíssima banda estivessem na sala de sua própria casa, cantando só para ele.

No repertório, faixas dos três últimos álbuns, com destaque para mais recente – e excelente – High Violet (2010). Teve também sucessos dos discos anteriores, como “Mistaken for Strangers“, “Apartment Story” e “Fake Empire“, do também ótimo Boxer (de 2007); “Secret Meeting” e “Abel”, de Alligator (de 2005)

Quando, após quase duas horas, o show parecia ter terminado e todos já se davam por satisfeitos, veio o bis de um jeito que ninguém esperava.

Primeiro, Matt resolveu se soltar. Fez piadinhas (“vocês são muito mais barulhentos que os americanos. Estamos nos sentindo o Kings of Leon”), desceu junto à galera, foi carinhosamente abraçado – sem parar de cantar nenhum verso de “Mr. November”, diga-se de passagem – voltou ao palco, cantou baladas e porradas e, depois de uma versão apoteótica de “Terrible Love“, seguida de “About Today”, deu sua cartada final: pediu, por favor, silêncio da platéia. Se encaminhou, junto à sua excelente banda, à beira do palco. Deixou o microfone de lado, enquanto os outros músicos desplugavam seus instrumentos. De repente, acompanhado pela banda a seco, com tudo desligado, começou a cantar à capela “Vanderlyle Crybaby Geeks“. Na platéia, duvido que tenha sobrado um só fio de cabelo sem se arrepiar.

Se o início do show já anunciava um quê de magia, o final foi o milagre.

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