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O Nosso Alta Fidelidade

em abril 24, 2011

Nesses bons anos que leio resenhas e críticas, cansei de ver filmes sendo taxados de qualquer coisa como “despretensioso, no melhor sentido da palavra”. Diretores renomadíssimos, orçamentos milionários, locações exóticas: tudo rendia produções despretensiosas, deforma que eu nunca me convenci do poder elogioso real dessa palavra, não via credibilidade nenhuma nisso. Afinal, de onde vem tanta falta de pretensão e o que há de bom nisso?

Minha pergunta começou a ser respondida por Apenas o Fim (Brasil, 2008) e pretensiosa missão de retratar uma geração que raramente se vê nos filmes, na tv ou no teatro. O que foi preciso para isso? Um diretor estreante, sua própria faculdade e os amigos do curso de cinema e uma história banal, de um relacionamento que eu ou você poderíamos ter vivido. Encontramos aqui o provável trunfo de Matheus Souza: fazer cinema no Brasil passando longe da pobreza, da violência e da “cultura genuinamente popular” (seja lá o que isso quer dizer) pra ousar falar apenas de uma relação entre jovens universitários.

A profunda identificação do espectador com a história de Antônio e sua até então namorada, que está prestes a viajar sem destino claro nem perspectiva de volta, não deriva apenas da universal dor de amor. O que vi no cinema foi um grito, ou melhor, um post num fórum de discussão on-line sobre uma geração. Se você tem mais de 25 anos ou menos de 18, talvez não valha a pena continuar essa leitura. Estamos adentrando um terreno árido para quem não brincou com Tamagochi, ouviu Britney Spears ou perdeu tardes assistindo Pokemon. Se você nunca teve um Ranger preferido, insisto, não perca seu tempo.

Se alguma das referências supracitadas faz algum sentido para você, o sucesso é quase garantido. Não acho exagero comparar Matheus Souza a uma de suas claras influências, Nick Hornby. Antônio, um típico nerd de camisa listrada e óculos de avô, chegam a se irritar com Ela (a namorada que não tem nome) e diz “será que você não consegue ficar 10 minutos sem citar um filme, ou música ou livro?”. Mas dele, ouvimos uma das melhores “piadinhas cult” do filme: “Acho Transformers melhor que todos os filmes do Godard.”

A quantidade de referências só poderia vir de um estudante que resolveu aprender fazendo, como Matheus Souza. E como esse processo demanda tentativa e erro, ele erra ao exagerar nas referências metalinguísticas, que soam premeditadas e pouco naturais, destoando da naturalidade que premeia a atuação de Gregório Duvivier e Erika Mader tanto nas memórias em preto e branco das conversas na cama, quanto nas longas tomadas em que a câmera segue o casal pelo campus da PUC-Rio em sua última discussão de relação.

Tanta leveza quase esconde o verdadeiro motivo daquela conversa. Ela vai embora, e ele vai ficar entregue a uma melancolia embalada por Los Hermanos. Assim como eles, nós não saberemos o que a levou a ir embora, nem se ela de fato foi. Mas o que importa, como o que Ela diz, é o que já passou os momentos pra lembrar. Não só os momentos deles, mas os nossos, que virão à cabeça sem remédio e serão capazes até de arrancar algumas lágrimas frente à tamanha identificação.

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