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Que não acabe

em maio 1, 2011

No dia do casamento Real, Marcelo Jeneci dedicou uma de suas músicas mais doces, “Pra Sonhar” aos noivos: “Muita gente tem me dito que tem tocado esta música em seus casamentos, então esta aqui vai para o príncipe e a princesa – vocês sabiam que eles casaram, né?”.

Falar de Jeneci aqui no blog não é novidade (nos encantamos com o álbum de estréia, “Feito Pra Acabar” e, de quebra até o próprio artista deu uma palhinha nos comentários, lembra?), assim, não é de se espantar que o time re.verb estivesse quase completo (e logo nas duas primeiras fileiras) no Auditório do Ibirapuera, na última sexta-feira dia 29, para assistir ao show desse excelente compositor e multi-instrumentista paulistano, certamente um dos mais diferenciados de sua geração.

Pontualmente às 21h, as luzes do Auditório se apagaram e a banda entrou. Vale dizer que, mais sensivelmente do que no álbum, a formação da banda – clássica: um baixo, duas guitarras e uma bateria – e sua qualidade sustentam o show, na medida em que fornecem uma base sonora sólida – por vezes até descaradamente roqueiras, como nos bons solos de guitarra de João Erbetta – que se contrapõe na medida certa a toda a leveza e lirismo da sanfona de Jeneci e ao langor da bela voz de Laura Lavieri.

A apresentação, iniciada com a seqüência de “Copo d’água”, “Café com Leite de Rosas” e “Felicidade”, começou um tanto tímida; intimista demais e quase desempolgada. Nada que comprometesse a qualidade do som – muito menos das músicas – mas faltava algo.

Esse algo começou a surgir justamente em “Pra Sonhar”, música que, por si, já desperta qualquer ânimo e, tocada da forma como foi – com um excelente solo de sanfona de Jeneci ao final – deu gosto. Os príncipes – duques? – devem ter ficado ainda mais apaixonados.

Qualquer resquício de desânimo, contudo, desapareceu por completo quando a faixa que dá nome ao álbum e ao show foi tocada: a bela letra, cantada a plenos pulmões por Jeneci; a bateria e o piano, intensos; a iluminação quase estroboscópica lançada sobre os integrantes no refrão… e, em meio a tudo isso, as cortinas ao fundo do palco sendo levantadas e o Parque do Ibirapuera entrando no Auditório. Um daqueles momentos memoráveis, arrepiantes, que, não à toa, rendeu quase três minutos de aplausos em pé da platéia.

No setlist, todas as faixas do disco lançado em 2010, além de algumas surpresas, como um novo refrão, criado pelo músico há pouco, e compartilhado em voz e piano com o público – que aprendeu logo e cantou junto – “A chuva é a vontade do céu de tocar o mar, e a gente chove assim também quando perde alguém/ Mas quando começa a chorar, começa a desentristecer, assim se purifica o ar depois de chover” ; e a participação da amiga e mentora Vanessa da Mata – que, dentre outras, cantou seu hit “Amado”, música composta por Jeneci.

Vanessa, em palavras carinhosas ditas ao amigo, foi muito feliz em ressaltar um dos grandes diferenciais deste: a habilidade de transformar a sanfona em instrumento para elaboração de harmonias, o qual, fora do contexto habitual do forró, integra perfeitamente o conjunto de guitarras e bateria.

E a música de Marcelo Jeneci é justamente assim: uma bela mistura de gêneros, ritmos e referências – sempre permeada pela poética de suas letras – e que, finalmente, vem sendo descortinada ao grande público, e por este reconhecida. Nada mais justo: trata-se de música de qualidade, muitíssimo acima da média; é música “feita pra continuar”, por muito tempo.

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2 respostas para “Que não acabe

  1. Lucas Bender disse:

    Ouvi bastante o disco, gosto dele e fiquei feliz por ver novidade boa nascendo. Ainda assim me surpreendem os onipresentes elogios e divulgações que o disco tem recebido pela internet. É um bom disco de início, mas lhe falta muito para que seja colocado entre os melhores do ano passado, como alguns fizeram. Com exceção da faixa título, essa sim notavelmente forte em sua expressão, as demais músicas correm sobre o trilho fácil e algo superficial da música cultuada na blogosfera. Tanto Jeneci como Laura Lavieri não usam realmente suas vozes, não cantam como se espera, não arriscam pisar fora da área de segurança; Laura tem uma voz muito agradável e afinada, mas quase não sai da mesma nota. Assim acontece na maioria das letras também, algumas com apelos rímicos lamentáveis, outras com uso sem cerimônia de clichês bastante desgastados. Isso tudo é muito normal em disco de estréia e espera-se que a experiênia lhes traga desenvoltura, para dar continuidade a este belo disco, mas realmente me intrigam os motivos de tanta exposição a Jeneci.

  2. Leticia Sodré disse:

    Flora, o que descreveu foi exatamente o que senti no show. Sensacional, né? Mas realmente no início faltava um pouco de presença. E a Laura, com aquela voz de amaciar qualquer um, precisa de um tanto de malemolência. Muito enrijecida no palco… Mas, mais experiência de palco deve resolver 😉
    Escutei por um mês todos os dias o CD, esperando ansiosamente pela oportunidade de assistir ao show. E “feito pra acabar”, com as árvores do Ibirapuera ao fundo, acabou comigo!
    Está de parabéns pelo blog. Escreve de um jeito muito sensível, apaixonado e gostoso de ler. Além de tudo, o blog é gostoso de ver também. O visual está muito bonito.
    Sucesso para vocês!
    Beijos.

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