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Coração doce

em maio 13, 2011

Doces franceses, normalmente, não são dos mais açucarados; têm doçura na medida certa. No caso do filme “Como Arrasar um Coração” (“L’arnacoeur”), de Pascal Chaumeil, contudo, o confeiteiro parece ter perdido a mão: é doce de doer os dentes.

O enredo em nada se difere das baciadas de comédias românticas – hollywoodianas – que se vêem por aí: Alex Lippi (Romain Duris) é um malandro que, junto com sua irmã e cunhado, prestam um serviço um tanto questionável: desfazer relacionamentos. Mais especificamente, parentes e amigos de mulheres supostamente envolvidas com “maus elementos”, contratam Alex para que ele – com seu charme francês aliado, a todos os clichês amorosos – “abra os olhos” da moça. Veja bem, em tese, seu papel não é fazer com que e se apaixonem por ele – o limite permitido é apenas um beijo – mas mostrá-las, em um breve momento de paixonite e encantamento, que seus relacionamentos são insuficientes; que mereceriam homens melhores.

A trupe, contudo, trabalha de acordo com alguns “princípios”, sendo o principal a recusa de interferir em relacionamentos felizes – existiriam três tipos de mulheres: as felizes, as infelizes assumidas e as infelizes que desconhecem sua condição. Apenas o último grupo seria o alvo.

Tal regra fundamental, no entanto, é botada em xeque quando Alex, endividado, decide aceitar a tarefa de romper o aparentemente perfeito e apaixonado relacionamento de Juliette Van Der Beck (a Coco Rouge Chanel – e mulher de Johnny Depp – Vanessa Paradis).

Não é nada surpreendente dizer que, diante de tamanha dificuldade, Alex acaba se interessando pela moça e, a partir de então, as nuances de ironia que permeiam o filme no início, descambam para a pura água com açúcar.

O mote, por exemplo, daria ensejo a se explorar questões mais profundas e interessantes de relacionamentos insatisfatórios: o porquê da preferência ao conformismo em contraponto à perspectiva de se ver sozinho; o que, de fato, preenche os relacionamentos; e até, em última análise, o questionamento da medida em que é possível se classificar estaticamente determinada relação como “feliz” ou “infeliz”, “satisfatória” ou “insatisfatória”.

Nada disso, contudo, surge ali. Para quem busca uma comédia romântica divertidinha – e, só para variar, em francês – é uma boa pedida; o filme adoça bem a boca, mas não mata a fome.

(“Como Arrasar um Coração”, “L’arnacoeur”, de Pascal Chaumeil)

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2 respostas para “Coração doce

  1. Martha disse:

    Olá, trabalho na agência Navigators e tenho uma sugestão de pauta para o blog de vocês! Em qual e-mail posso entrar em contato? Obrigada!

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