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Samba, a gente não perde o prazer de cantar

em maio 17, 2011

Sobre “a nova poesia”, H.L. Menken (velho conhecido do re.verb) diz o seguinte:

“O problema da maioria dos novos poetas é que eles são muito cerebrais – ou seja, atacam os problemas da arte com métodos da ciência (…) O poeta dos velhos tempos não ligava para teorias. Quando lhe vinha aquela vontade de escrever, simplesmente entrava numa banheira com espuma, amarrava uma toalha na cabeça e tentava reduzir seus sentimentos ao papel. (…) mesmo o seu pior fracasso ainda tinha algo natural e desculpável – era o fracasso de um homem com febre de expressar-se” (H.L. Mencken, “A Nova Poesia”, em O Livro dos Insultos, Cia. das Letras).

Assim sendo, o samba claramente pertence à velha guarda; não padece desse mal moderno.

Sim, as rimas e os temas são fáceis: amor sempre rima com dor, sorriso com paraíso e por aí vai… mas qual o problema? É incrível como diz tanta coisa um mesmo “laiá laiá”. E é justamente dessa informalidade, simples como uma cerveja gelada, que soa um canto dos mais expressivos, que fala a todo mundo.

Confesso que quase choro toda vez que ouço versos como: “…mas iremos achar o tom, um acorde com lindo som e fazer com que fique bom outra vez o nosso cantar…”, ou ainda: “…chego a ter calafrio no corpo e a tristeza invade o meu rosto, quando eu lembro teu cheiro, teu gosto, e a farra que a gente fazia…”.

No samba, mesmo a mais profunda dor faz dançar; traz um lamento quase alegre. E, para falar da dor – e de amor – não há rodeios: é tudo escancarado, deslavado, visceral; sincero como uma conversa de bar.

Sexta passada, uma suposta roqueira e suas amigas caíram no samba. Dos melhores, diga-se de passagem, Arlindo Cruz e Diogo Nogueira.

Quanto ao último, basta repetir, novamente, H.L. Mencken: “o que os homens vêem bêbados em outras mulheres, vêem sóbrios em Greta Garbo”. Pois bem, o que as mulheres vêem em Diogo é… bom, deixa pra lá.

Arlindo é o samba encarnado: a malandragem, a carioquice, a fala mansa e a boa vida – sem falar em alguns dos melhores sambas de raiz feitos nos últimos tempos.

O resultado? A alma lavada como que por um banho de sal grosso. E dias seguintes de muitos assobios baixinhos ritmando “laiá laiás”.

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Uma resposta para “Samba, a gente não perde o prazer de cantar

  1. Juliana disse:

    “A tristeza é senhora
    Desde que o samba é samba é assim
    A lágrima clara sobre a pele escura
    A noite a chuva que cai lá fora
    Solidão apavora
    Tudo demorando em ser tão ruim
    Mas alguma coisa acontece no quando agora em mim
    Cantando eu mando a tristeza embora
    (…)”

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