re.verb

cultura, crítica e tudo o mais

Na bad

em maio 19, 2011

Ouvi de uma amiga que o inverno é a pior estação para os solteiros. Ainda que, oficialmente, aquele não tenha chegado, o frio já… e, com ele, a velha sensação de um certo desamparo inevitavelmente arrebata os corações mais sensíveis espalhados por aí.

É por essa razão que hoje é dia de falar de um álbum que não é exatamente novo – foi lançado no final de 2010 – mas que cai bem como um chocolate quente neste tempo.

Comparada à grande parte das outras cantoras da “nova MPB” – como bem falou José Flávio Júnior: “Achar uma boa cantora no Brasil é moleza. Se você sacudir uma árvore, é bem possível que derrube umas três” – Bárbara Eugênia não apenas é talentosa, mas também menos afeita à leveza e ao colorido; é mais melancólica, sombria – o que é um alívio em meio à mesmice.

Não por acaso, seu disco de estréia chama-se “Journal de BAD“. E é isso aí: a pobrezinha está com o coração despedaçado (só ela?) e canta sobre suas agruras para expiar a dor – logo na abertura, em “A Chave”, há o relato de um fim de relação que, facilmente, poderia ter sido retirado de um diário.

As treze faixas, em sua maioria, abraçam diversas espécies do rock’n’roll – em português e inglês –; sendo tudo, no entanto, bastante delicado, com ares nostálgicos, principalmente do cenário europeu dos meados dos anos 60.

Por vezes com raiva (“Drop the bombs” – em que soa como uma Alison Mosshart psicodélica); outras com pura melancolia (como o lindo e tristíssimo blues-rock “Embrace my heart and stay” – “I beg you baby, baby, baby, please come to me/ Don’t leave me this way, embrace my heart and stay“); com ironia (“É, rapaz!”: “Eu sou aquela que te olhou com bem mais do que olhos de agradinhos, de primeira vez”); ou ainda com a inocência fofa do rock dos anos 50 (como em “Por aí”, na qual a garota espera, “fumando mil cigarros, bebendo Coca-Cola”, o garoto que nunca chega).

A exceção, que pode até ser considerada um sinal de esperança – por ser a faixa que fecha o álbum –, é a bem humorada marchinha “Sinta o gole quente do café que fiz pra ti tomar” (sim, “ti”, com “i”).

O disco conta ainda com participações de peso, como Tom Zé – que participa da belíssima “Dor e Dor” –, a guitarra inconfundível de Fernando Catatau em “Tempo”, e ainda Otto, Karina Buhr e Tatá Aeroplano.

É, enfim, um álbum muito bom, que conta com um tom quase confidencial e que, felizmente, destoa daqueles de outras menininhas por aí.

É também um disco indicadíssimo – ou absolutamente proibido – àqueles que, no momento, têm as vidas ocupadas por desilusões amorosas, dores de cotovelo, pés na bunda e afins.

Anúncios

Uma resposta para “Na bad

  1. […] ao piano, por Sara Bentes), Karina Buhr soltando toda sua energia em “Mira Ira”, BárbaraEugênia com uma de suas melhores faixas (“A Chave”), a música que mais gosto de […]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: