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Suspense vazio

em junho 13, 2011

“Preciso muito te contar uma coisa… não é algo trivial, é uma bomba… mas te conto depois”.

Frases como estas são, a um só tempo, um convite irrecusável à curiosidade e uma das coisas mais irritantes que uma pessoa pode fazer com outra.

Justamente por isso, Amor Sem Fim, de Iwan McEwan (Companhia das Letras, 2011), tem no persistente suspense seu melhor atributo e também seu grande defeito. Isso porque toda a narrativa se sustenta na expectativa do que está por vir e, conforme os acontecimentos se tornam conhecidos, a única forma de manter o leitor atento é lançar um novo mistério; uma nova isca.

A história até teria potencial para ser interessante em si mesma – tanto é que virou filme (Enduring Love, de Roger Michell)–: um casal se reencontra depois de um período de separação e, precisamente na ocasião da celebração da volta – um piquenique no parque – presencia um acidente de balão em que uma tragédia se deflagra. Junto com ela, novos personagens são inseridos na trama e outros indivíduos se imiscuem num amor que parecia inabalável.

Mais precisamente, o amor do cientista/jornalista Joe Rose e da crítica literária apaixonada por Keats, Clarissa, é invadido por Jed Perry, um fanático religioso que, assim como Joe, auxilia o resgate do balão desvairado. Não se trata, porém, de um triângulo amoroso comum; ali, Perry encarna a obsessão doentia e persegue até as últimas conseqüências aquele que acredita ser seu amor divino.

O livro é, de fato, instigante; misturando trechos de relatos científicos com digressões íntimas, carrega o leitor ao interior da perturbada mente de Joe – que, de repente, se vê às voltas com um admirador improvável e com a desesperada tentativa de manter são o relacionamento com sua linda mulher.

Porém, o que poderia ser um interessante thriller psicológico – na medida em que adentrasse, de fato, nos questionamentos e dúvidas profundas do narrador (estou louco? Estou apaixonado – e por quem? Como os respingos do acidente estão sendo interpretados por minha mente?) – não vai muito além de rasas perturbações que povoam o cérebro excessivamente racional de Joe.

Ian McEwan é um dos mais aclamados escritores britânicos da atualidade (é o autor de Persuasion, Saturday, dentre outros), mas, nas idas e vindas deste livro – e a despeito de todo o suspense criado – oferece algo um tanto vazio. É como se fizesse força para que o leitor lesse as páginas na diagonal, apenas para descobrir o desvendar de um novo mistério; desperdiçando, assim, a chance de trazer mais uma memorável obra.

Trata-se, sim, de um bom livro – daqueles difíceis de se largar – mas deixa, ao final, um sabor de: “era só isso que você tinha para me contar?”

(Amor Sem Fim, Iwan McEwan, Ed. Companhia das Letras, 2011)

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