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Máquina do tempo

em setembro 6, 2011

Dos maiores prazeres que há é pegar um livro daqueles que não se quer largar. Um livro que te mantém atento durante horas, que faz você mergulhar na história; como num bom jogo de videogame, você se sente parte daquilo, vivendo todas as passagens. Diante de um livro desses, você, leitor, se transforma no protagonista.

Nada mais natural, portanto, que em uma história que começa quando as personagens têm seus vinte e poucos anos – mais precisamente de noite na cama, no final da faculdade – e se desenrola ano após ano até que ambos tenham quarenta anos, você, leitor, sinta estar crescendo junto, envelhecendo a cada página.

Assim é Um Dia (One Day), de Davis Nicholls – publicado originalmente pela Vintage Contemporaries e, no Brasil, pela Editora Intrínseca.

O enredo não é dos mais inovadores: Renato Russo já o cantou em “Eduardo e Mônica” e o filme “Harry e Sally – Feitos Um para o Outro” o eternizou como um clássico da comédia romântica. Ainda assim, difícil não se encantar com a história de Emma e Dexter (“Em and Dex, Dex and Em”) dois opostos que, mesmo querendo crer que são apenas bons amigos, não conseguem viver um sem o outro.

Ela, no início uma garota de 22 anos, cult, revoltadinha e politizada, depois de várias tentativas e erros se torna uma mulher independente e escritora bem sucedida; ele, um moleque bonitão e playboyzinho que demora a crescer e insiste, por mais tempo do que deveria, em manter seu status de pseudo-celebridade na vida louca (“wanted to live life in such a way that if a photograph were taken at random, it would be a cool photograph”).

A fim de dar conta de vinte anos da vida dos dois, a história se desenrola por meio do relato de só um dia, sempre 15 de julho – a data em que ficaram juntos pela primeira vez – todos os anos entre 1988 e 2007.

Apesar de parecer – e ser – um romance fluido e leve que, a despeito de passagens mais sombrias, entretém e diverte (a propósito, um filme baseado neste livro, com direito a Anne Hathaway e tudo o mais já está sendo aguardado), o diferencial da obra está justamente no efeito que causa no leitor – arrisco-me a dizer, principalmente o leitor mais jovem.

Isso porque, se no começo os protagonistas refletem o momento em que aquele que lê vive (as festas, as paixonites que parecem consumir toda a – inesgotável – energia, a preocupação não tão séria assim em se saber o que fazer da vida…), na medida em que crescem, escancaram o mundo “adulto” de maneira quase perturbadora: as ambições diminuem, alguns desejos – antes tão intensos – passam, o gosto pelo rock é naturalmente substituído pelo jazz e a música clássica e assim vai. Neste sentido, até o ritmo do livro desacelera; percebe-se que, a cada novo 15 de julho, menos coisas acontecem.

Assim, o jovem leitor, que no início se identifica e se empolga com a vida de Emma e Dexter, parece ser rapidamente transportado para seu próprio futuro (como em uma máquina do tempo), sendo, portanto, convidado a se ver daqui a alguns anos. E a imagem não necessariamente é das mais animadoras.

Seja como for, o livro é uma delícia de se ler e a viagem ao futuro que ele proporciona pode, quem sabe, levar o leitor a questionamentos dos mais importantes.

(Um Dia (One Day), de Davis Nicholls, Vintage Contemporaries e, no Brasil, Editora Intrínseca)

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