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Fora do trilho

em setembro 26, 2011

Quando as coisas saem do trilho, e o trem ruma para a direção oposta da anunciada, reações igualmente inesperadas ocorrem. Diante do imprevisível, como saber qual a melhor forma de agir?

Esta é uma das questões postas em Confiar (Trust, de David Schwimmer). A história ali contada é a de um ambiente em que tudo estava muito bem, até não estar mais.

Annie (Liana Liberato) é uma adolescente de 16 anos que, assim como tantas, presta mais atenção na tela de seu celular e em seu computador do que no mundo à sua volta; para ela, interagir socialmente é trocar mensagens de texto. Ocorre que, se quando se olha no olho de uma pessoa já não é fácil saber o que de verdade há ali, quando a relação se consolida atrás de um teclado, então, confiar é ainda mais difícil.

E a garota descobre tal desassossego da maneira mais dura.

Encanta-se por Charlie, quem, no princípio, acredita ter também 16 anos. Conforme as conversas se intensificam, ele diz que é um pouco mais velho, que tem 20 anos. Papo vai, papo vem, ele confessa ter 25. Quando finalmente se encontram, ela percebe que não é bem assim; que ele deixou de ter 25 anos há muito tempo.

Ainda assim, ela confia; e crente no amor que o homem lhe promete, segue adiante. E o trem descarrila de vez.

Descarrila não apenas porque o espectador se vê diante de uma história permeada pelo incômodo e perturbador tema da pedofilia, como também porque as reações desencadeadas a partir de então parecem sempre seguir na direção inversa do esperado.

Na medida em que a família descobre o que ocorreu, uma crise explosiva se instala no ambiente familiar outrora tão tranqüilo; seu pai, William (o excelente Clive Owen), vê o chão sumir de sua frente, e sentimentos os mais diversos e insuportáveis o acometem: a filha, que antes só lhe trazia alegrias, agora faz nele aflorarem rompantes de impotência, raiva, culpa e repulsa.

Dessa forma, com as peças desarrumadas sobre o tabuleiro, ninguém consegue lidar com a situação: nem Annie, quem demora a se perceber vítima; nem William, que só pensa em botar as mãos naquele que tocou sua filha, mas se esquece de a amparar. (Em um determinado momento, a terapeuta de Annie – interpretada por Viola Davis – diz àquele: não podemos evitar que coisas ruins aconteçam a nós ou àqueles que amamos; e tudo que podemos fazer é estar sempre por perto para ajudar o outro a se levantar da queda.)

Além de belas atuações, o filme também se destaca por sair do lugar comum, na medida em que corajosamente tangencia questões delicadas: até que ponto um ato consentido é violento; ou em que medida uma adolescente é capaz de consentir (neste sentido, há uma ótima cena em que o colega de trabalho de William, ao descobrir o ocorrido, diz algo como: “nossa, que susto, quando você falou que ela havia sido violentada, eu pensei que tivesse sido um estupro de verdade”).

Ainda assim, apesar de incômodo, o filme é longe de ser chocante ou moralmente revolucionário; pelo contrário, é sensível e foge de toda forma de maniqueísmo. É, enfim, um dos melhores filmes em circuito neste ano.

(Confiar, Trust, de David Schwimmer)

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