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Sobre Noruega, João Gilberto e Pedantes

em dezembro 9, 2011

Eis que depois de alguns anos babando nos vídeos de Erlend Øye e Eirik Glambek Bøe, era chegado o momento de ver Kings of Convenience no palco, ao vivo, ali pertinho. Estranheza logo que divulgaram detalhes do show. Cine Joia, baladinha. Ok, The Whitest Boy Alive, com seu sotaque eletrônico, no Studio SP fez bastante sentido em 2009, mas dois violões e uma balada? Não parecia fazer sentido, mas antes que eu pudesse terminar minha reflexão a pré-venda já tinha acabado e as meia-entradas tinham evaporado. Parei de divagar e corri pra Chilli Beans do Frei Caneca para amargar os 120 reais da inteira e garantir a chance de ver os noruegueses de pertinho.

“Are you german?”

Não esperava outra coisa senão um show tranquilo de boa música, tive o que queria mas também fui surpreendida:
Já sabia que ia ouvir a bossa de gringo, mas não imaginei que a experiência “João Gilbertiana” seria tão fidedigna: a acústica do Cine Joia não foi feita para uma dupla de “indie folk” (pra mim, dois violões e um jeito suave de cantar) e a reverberação dos ruídos incomodava. Os noruegueses lembraram um pouco meus professores do Ensino Médio, que para parecerem menos chatos diziam “poxa, gente, essa sala não ajuda, vamos ficar quietinhos”. Achei até graça, não me incomodou a postura dos músicos. Eu já tinha passado por um Jorge Drexler pedindo pra nós não batermos palma por muito menos e eu tinha uma noção da postura dos noruegueses de “tocamos para quem está interessado a ouvir nossa música”. Nem todo músico é showman. Deal with it.

Dos músicos eu esperava isso, da plateia não. Irritados, os indies-hypes-blasé começavam um coro de Shhhhhhhh ao final de cada música, mal podíamos aplaudir. Não sei nem se vale a pena comentar o cidadão que batia “palmas diplomáticas” (mãos levantadas e girando), eu espero que fosse uma piadinha interna com alguém, ou uma coisa importante que fizesse sentido , não uma conduta inspirada no bom comportamento da plateia europeia, já que teve quem disse que “brasileiro não sabe se comportar”. Engraçado, o bem comportado falou isso em português, sem sotaque.

Superado o bode da plateia, o show foi uma delicinha. Apesar de não serem os reis do carisma, os noruegueses interagiram com o público e mostraram um som impecável (levando em consideração que eles não tinham culpa pelas microfonias). Erlend, desfilou toda sua sensualidade de lumbriga ruiva dançando, queria que a plateia acompanhasse tons impossíveis do teclado e “de brincadeirinha” soltou: “Vocês não ficam quietos, vocês não conseguem cantar… vocês são alemães?” Teve quem torcesse o nariz. Boat Behind, I’d Rather Dance With You e Misread (sim, a música que toca na Alpha/Antena 1) foram pontos altos. Eirik cantou Corcovado em português, para reconquistar qualquer fã que sentia falta de cerveja ou de carinho. Rule My World produzido por Röyksopp encerrou o show como “a remix of a remix”, pra combinar com a pixta do Cine Joia.

Saldo final? Seria um sonho vê-los tocando só pra mim, seria ideal vê-los tocando em Ipanema , seria correto que um show como esse acontecesse no Auditório do Ibirapuera com todo mundo sentado, ar condicionado que funciona e uma acústica que favorecesse, mas ainda que não tenha sido nada disso,
foi um show memorável.

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3 respostas para “Sobre Noruega, João Gilberto e Pedantes

  1. Nádia disse:

    pela descrição, as palmas diplomáticas pareceram as palmas de surdo-mudo… se o cara era surdo você vai se sentir mal pelas críticas, hein? 😛

  2. Vivi disse:

    Eu sei que posso estar sendo injusta e ter feito julgamento precipitado. Sei também que esse movimento é usado em vários contextos. Mas tomando como base o contexto comportamento realmente não parecia, Nádia!!! Como eu disse, podem ser milhões de coisas, mas pensando na plateia que era e no próprio comportamento da pessoa, a mensagem era “olha como só eu entendo a banda e contribuo para a atmosfera correta do show”.

  3. Nádia disse:

    eu tava brincaaaando! tenho certeza que sua avaliação está correta, shows indie são a maior concentração de pedantes-ai-como-odeio-o-brasil por metro quadrado!

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