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Longe do óbvio

em fevereiro 6, 2012

Em meio à profusão de (boas) cantoras nacionais que surgiram recentemente, é cômodo jogá-las todas em um balaio só e dizer que a música popular brasileira, cantada em voz feminina, evoluiu nos últimos tempos. Não deixa de ser verdade.

Porém, dentre elas, algumas optaram por trilhar caminhos mais fáceis –i.e. óbvios, ou comerciais – enquanto outras preferiram fincar sua bandeira em espaços nunca dantes navegados.

Um dos melhores exemplos do último grupo é aquela que lançou um dos melhores discos de 2011, e que continua, com sucesso, fugindo do lugar comum. Ela é Karina Buhr.

A moça tem uma das melhores bandas da música brasileira atual, com Fernando Catatau e Edgard Scandurra nas guitarras, para citar dois dos mais renomados. Seu show é deveras um show… intenso e memorável – em um dos tantos a que assisti, um amigo que me acompanhava disse: “esta é a Florence Welch brasileira”. Pois bem, dada a dramaticidade de suas performances e seu estilo, concordo. E digo mais: é nossa Florence do mangue pernambucano; com todo o calor e a vivacidade que se esperaria.

Karina é contemporânea – ou moderninha, se preferir. Seja no visual descolado e  fluorescente, na sonoridade experimental (que, diferente de outros, dá certo), ou nos temas retratados em sua música.

Quanto aos últimos, em seu mais recente álbum, o excelente Longe de Onde (que consegue ser ainda melhor do que o anterior, o ótimo Eu Menti Pra Você), um dos mais notáveis é a dificuldade de se envolver.

Digo que tal tema é contemporâneo, porque ouso a dizer que “nunca antes na história deste país” – e de tantos outros – o compromisso (em geral) se mostrou tão fora de moda. Pessoas descoladas não se comprometem; são naturalmente bem-resolvidas. Não precisam de nada, nem ninguém – se tomarem um pé na bunda, ou forem preteridas ou dispensadas, continua tudo muito bem. (Duvida? Dá uma olhada no “feice”…)

Somos todos tão independentes que praticamente fazemos fotossíntese para sobreviver.

Pode até ser verdade, mas existe também o reverso da moeda, e foi isto que Karina conseguiu captar tão bem: lado a lado com a pretensa autossuficiência, anda o pavor de se envolver emocionalmente.

Três das faixas de seu álbum falam sobre isso: as ótimas “Não me ame tanto” (“não me ame tanto, eu tenho algum problema com amor demais, eu….jogo tudo no lixo, sempre”),“Pra ser romântica” (“hoje eu dei pra ser romântica, perto de você não me sinto só, de você quero distância”) e a belíssima “Amor brando” – “eu já sinto um calor de amor, de amor, quando você chega aqui (…) só te peço que se aproxime de mim um pouco, mas não tanto, a ponto de eu sentir sua falta quando você for embora”.

E é assim, sendo verdadeira e crua, que Karina se destaca das demais cantoras de sua geração. Jamais segue o caminho mais fácil; não canta samba, tampouco faz questão de ser fofa – duvida que isso seja um diferencial? Pois bem, imagine Tiê, ou Tulipa Ruiz cantando algo como “por favor me dê um copo de veneno pra eu morrer (…) com duas pedrinhas de gelo, pelo menos” (“Copo de Veneno”)?

Por essas e outras, Karina Buhr é experimental, ousada, rock’n’roll, introspectiva e às vezes sombria. Mas se mostra também a mais madura dentre as tantas outras menininhas cantantes por aí. E, ao contrário de outras, merece cada centímetro do espaço que tem conquistado.

Ouça e baixe Karina Buhr, aqui.

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4 respostas para “Longe do óbvio

  1. Julio Melo disse:

    “Pessoas descoladas não se comprometem”: taí uma frase que vai ficar.

  2. Mariana Lima disse:

    Baixei e tô ouvindo no repeat!

  3. Essas é das malditas! Amém!

    Isso Sem falar do sotaque gostoso da moça. Vale a pena ouvir.

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