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Silva

em fevereiro 7, 2012

No caderno C2+Música, do Estadão do último sábado, dia 04 de fevereiro, ao se discutir sobre o pretenso fim da canção – exclusivamente a partir do ponto de vista das obras de Chico Buarque e Caetano Veloso, ressalte-se –, Romulo Fróes, a fim de falar da geração contemporânea de músicos, afirma que “Os músicos dessa geração discutem sobre pedais, amplificadores, microfonação, válvulas, softwares de gravação, instrumentos antigos, etc., tanto quanto propriamente de música”.

Pois bem, considerando tal argumento, e sem fazer qualquer julgamento de valor sobre ele, é possível dizer que a tecnologia, hoje em dia, faz parte da música. Mais ainda, que é válido afirmar que elementos eletrônicos são introduzidos na música contemporânea tão naturalmente como outrora se inseria um riff de guitarra.

E é justamente desse sincretismo de sons e tecnologias, sejam antigos ou modernos, que surgem algumas boas surpresas do cenário musical atual, como esta de quem falamos neste post.

Quem? Um sujeito que carrega no nome as raízes brasileiras: Silva.

 

Lançado no final de 2011, o EP SILVA EP, de Lúcio da Silva Souza, se diferencia justamente pela capacidade de mesclar elementos tradicionais da canção – i.e. boas letras e melodias, sem falar em violinos e piano clássico – a pirotecnias típicas dos anos 2000 (mais precisamente, toda sorte de barulhinhos capazes de serem criados diante de um computador).

Apenas cinco faixas bastam para que se perceba que esse Silva não é um qualquer – afinal, alguém que pretende ser reconhecido pelo sobrenome mais comum do país deve ter algo diferenciado a mostrar. Pois bem, ele tem.

O início, “12 de Maio” é arrebatador: uma voz meio suave, permeada por um som eletrônico-carnavalesco canta: “mesmo quando ela não está se arrastando pelo som da batucada, fica pronta pra quem se arriscar, vai dançando ate o fim da madrugada…e a hora passa sempre devagar”. (Soa como um Holger adulto; Los Hermanos moderno.)

A segunda, “Imergir”, com um som sutilmente sintetizado, fala sobre o fim daquele – ou de outro – relacionamento; lançando mão de, literalmente, afogar as mágoas para seguir adiante: “navios dizem recomeço, do mar ninguém chegou ao fim, eu vou deixar seu nome imergir”.

“Visita” (minha preferida), é mais delicada (com violino arremedando folk) e letra simplesmente linda. Relata os preparativos para um encontro – seguido de outros:

“vou lhe fazer uma visita, mas não fica assim aflita, que eu não sou de reparar; não precisa de banquete, nem preocupa com enfeite, não me vai empetecar.

Os velhos discos de bolero, to levando pois eu quero ensinar como dançar, e dizer-lhe ao pé do ouvido, com um tom meio atrevido, dois pra lá e dois pra cá”

“Cansei” começa com um piano clássico, que se moderniza, se eletroniza, e desabafa: “cansei dessa rotina, já não ouço o mesmo som, cansei desse negócio de tentar ser bom. Cansei dos meus retratos, da falsa sensação de ter você por perto no seu coração” – e é linda.

Para terminar, a abafada “Acidental”, passa o risco e fecha a conta de um excelente disco; é mais pop e menos melódica, mas deixa a vontade de se querer ouvir mais desse tal de Silva.

Assim, que venha o álbum oficial de estréia, e tantos outros a seguir. A música brasileira contemporânea só tem a ganhar com artistas que não escolhem o moderno em detrimento da beleza tradicional da canção, mas que misturam o ontem e o hoje com excelência.

Ouça aqui.

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4 respostas para “Silva

  1. Julio Melo disse:

    Confesso que a minha falta de tempo não vai me permitir fazer uma audição crítica do disco do Silva – nunca antes na história deste país eu trabalhei tanto – até porque eu não quero ouvir 15 minutos (e julgar) o que o cara levou meses fazendo. Lembro que a primeira vez que ouvi o cd “4” do Los Hermanos eu levei um “choque”, depois gostei.

    Sobre a tecnologia na música, eu não sou muito fã não. Sei lá.
    Sabe esses dvds que aos rtistas lançam hoje em dia? Então, eu não gosto de nenhum: muito superficial, voz muito perfeita, guitarras e bateria sem erros – tudo corrigido. Antigamente nos discos ao vivo a gente “ouvia” a respiração do cantor… hoje parece disco de estúdio. O artista tem que se garantir ao vivo, é só, por exemplo, ver o show do Queen no Rock in Rio de 1985.

    (estou cansado das músicas que ouço no celular, hoje, por exemplo, ouvi Avril Lavigne “Let Go” e “Under my skin. Já tenho preparado U2 “Rattle and Hum”). Vou ouvir algumas sugestões suas.

    Um abraço.

  2. Julio Melo disse:

    Ah, o “pessoas descoladas não se comprometem” e “são naturalmente bem-resolvidas” rendeu comentários no twitter. rsrsrs

  3. Julio Melo disse:

    Fala sobre o Wando rs

  4. Juliana disse:

    Amei a dica!!! O blog tá demais, parabéns! 🙂

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