re.verb

cultura, crítica e tudo o mais

Legados

em fevereiro 14, 2012

Até que ponto tradições, em especial aquelas que sobrevivem por gerações, se mantêm por si – como algo superior, que paira sobre os mortais e permanece vivo (ou ao menos latente), a despeito de grandes esforços daqueles responsáveis em o cultivar?

Particularmente em se tratando de legados de família, em que medida semelhanças genéticas e um mesmo sobrenome são suficientes? Ou sua manutenção, mesmo quando se fala da herança de um ente uno – “a família” – depende exclusivamente do esforço constante das gerações futuras?

Questionamentos de tal sorte são o pano de fundo de “Os Descendentes (“The Descendants”, de Alexander Payne).


Ali, tais questões se desenvolvem paralelamente, em dois flancos: o principal diz respeito ao paradoxo de um pai, Matt King (George Clooney, indicado ao Oscar deste ano de melhor ator pelo papel), que tem de reestruturar sua família, reatando laços com suas filhas (e readquirindo o respeito e afeto daquelas), justamente no momento em que o núcleo familiar a que pertencem começa a ruir: a mãe/esposa entra em coma irreversível após um acidente no mar.

Não bastasse a perda iminente, ao se ver obrigado a de fato se relacionar com suas filhas, Alexandra (Shailene Woodley) e Scottie (Amara Miller) – de 17 e 10 anos, respectivamente – Matt descobre novas facetas das meninas (os problemas e a rebeldia de cada uma não se mostram incompatíveis com seu crescente companheirismo e admiração), de sua mulher (toma consciência de que pouco sabia daquela com quem convivia até então) e de si próprio (apesar da tentativa de os conter, vê que em seu peito explodem todos os tipos de sentimento – é memorável a cena em que Matt, após descobrir algo terrível sobre sua mulher, sai correndo, ofegante e atabalhoado, e parece querer fugir de todos os pensamentos que surgem em sua mente).

O segundo flanco de desenvolvimento do filme é a discussão sobre a venda, ou não, de um enorme e valioso terreno que, tendo sido herdado de seus mais remotos ancestrais, pertence agora a um fundo familiar (administrado e representado legalmente por Matt) do qual fazem parte os incontáveis primos e familiares.

Em dado momento, ambas as tramas passam a se misturar e, à medida que Matt redescobre a importância e a complexidade de se pertencer a uma família – e conforme se aproxima cada vez mais da sua – passa a reconhecer o valor de lutar para que ela, e as relações subjacentes, não se desintegrem.

O diretor, Payne, que também foi responsável pela direção de Sideways (2004), opta novamente, como naquele, por esmiuçar e se aprofundar em temas íntimos das relações humanas, sem, contudo, descambar para algo excessivamente melodramático. Para tanto, conta não apenas com atuações que caminham sobre todo o espectro de emoções – da comicidade à tristeza dolorida – mas também enfatiza a beleza do local aonde a trama se passa, o Havaí. (Assim, não seria exagero imaginar que o filme seria sensivelmente mais pesado caso se passasse, digamos, no inverno da Finlândia.)

Dessa forma, trata-se de um drama familiar equilibrado, apesar de a família ali retratada – em todos os seus níveis – não ser das mais serenas. Um bom filme, com boas atuações, e capaz fazer o espectador, ao sair da sala, pensar e repensar muito sobre questões tão familiares.

 

(“Os Descendentes, The Descendants”, de Alexander Payne, 2011)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: