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O Começo do fim – A Trilogia Milennium

em fevereiro 14, 2012

Quando terminei de ler o livro Os homens que não amavam as mulheres, o primeiro da trilogia Millennium, do sueco Stieg Larsson, logo pensei que ali estavam os ingredientes perfeitos para um grande filme. E assim o fez David Fincher: seja na força de seus personagens, seja na inteligência de seu enredo, o filme daquele diretor, como o livro, prende a atenção de seu espectador do início ao fim.

Tendo como pano de fundo o misterioso desaparecimento da jovem Harriet Vanger, em 1966, e a obsessão de seu tio-avô Henrik (Cristopher Plummer) por descobrir o que houve naquele ano com sua sobrinha, a trama se desenvolve com a tentativa do jornalista Mikael Blomkvist (Daniel Craig, que, aqui, em nada lembra o inabalável James Bond) em provar sua inocência em um processo de difamação, que vem causando diversos prejuízos a sua revista, a Milennium.

Com o pretexto de escrever a biografia do magnata aposentado Henrik, Mikael chega à pequena e nevada ilha de Hedestad, ao extremo norte da Suécia, para, na verdade, investigar o desaparecimento de Harriet, ocorrido naquele local quarenta anos antes – causando, assim, um profundo incômodo em toda a família Vanger.

Neste contexto, revirar o baú dos Vanger, para Mikael, acaba se revelando uma tarefa perigosa e, na medida em que os segredos desta família são revelados, Mikael se aproxima mais dos motivos que levaram ao desaparecimento de Harriet.

Com a ajuda da habilidosa hacker Lisbeth Salander (Rooney Mara), uma jovem que está sob tutela do Estado por conta de seu comportamento violento, Mikael consegue avançar em sua investigação de forma prodigiosa, ao mesmo tempo em que descobre em Lisbeth uma figura frágil e assustada.

Sem dúvida, o destaque do filme é a força da sua protagonista Lisbeth Salander, interpretada com coragem e maestria pela novata Rooney Mara. Em princípio, Lisbeth parece ser uma jovem perturbada e rude, tanto por sua aparência física muito magra, tatuada, cheia de piercings e penteados extravagantes, quanto por sua atitude, sempre cabisbaixa e monossilábica. Aos poucos, passamos a conhecer uma mulher que enfrentou uma série de abusos, mas que aprendeu muito bem como se defender sozinha e articular suas próprias vinganças, apesar de sua aparente fraqueza física.

As atitudes de Lisbeth, ainda que questionáveis do ponto de vista moral, aproximam a protagonista de seu espectador, na medida em que torcemos para que todas as suas investidas na trama dêem certo, inclusive um romance pouco provável com Mikael.

“Os homens que não amavam as mulheres” acerta ainda onde a maioria das adaptações cinematográficas de obras literárias peca: na escassez de detalhes importantes para os enredos e na velocidade com que as tramas se desenvolvem. Apesar de longo, o filme de 158 minutos não perde o ritmo em nenhum momento e não abandona o espectador com suas próprias conclusões, fechando muito bem os pontos abertos durante a trama, mérito do competente roteirista Steven Zaillian.

Após a exibição, ficou a vontade de ver os próximos dois filmes (se é que existirão) baseados nos livros A menina que brincava com fogo e A rainha do castelo de ar, que fecham a trilogia Milennium e que são igualmente ricos em personagens e conteúdo. A pena é que Stieg Larsson faleceu vítima de um ataque cardíaco, logo após a conclusão do último livro e, assim, as aventuras de Mikael e Salander também estão com os dias contados.

(“Os homens que não amavam as mulheres”, The girl with the dragon tattoo”, de David Fincher, 2011)

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4 respostas para “O Começo do fim – A Trilogia Milennium

  1. Juliana Goldman disse:

    Excelente texto!! Fiquei com mais vontade de ver o filme! Espero novos posts da Dri.

  2. Julio Melo disse:

    É, terei que ver o filme para saber o porquê do título… (deve ser por causa de um suposto assassino…) rs

    • Anita C disse:

      Na verdade o filme (ambas as versões) e o livro vão muito além da referência feita pelo título. Stieg Larsson chega a ser “ardido” por não ter medo de trazer aos leitores pontos polêmicos que muitas vezes tentamos esquecer. Um deles, é a forma como muitas mulheres são (des)tratadas.
      “Os homens que não amavam as mulheres” ou como preferiu dizer o autor no título original – os homens que odiavam as mulheres – tenta traduzir um pouco desta vulnerabilidade a qual nós mulheres ainda estamos sujeitas. É uma pena que existam pessoas que achem isso engraçado…
      @Dri Rollo – ótima resenha, Dri. Deu vontade de ver o filme novamente.

  3. Olá! Sou cartunista especializado em caricaturas e este foi o meio que encontrei p/ expressar minha admiração pelo trabalho de David Fincher e em especial do anti-carisma mais sedutor dos últimos tempos encarnado na personagem Lisbeth Salander.

    http://marcelographics.wordpress.com/2012/02/17/caricaturas-millenium-the-girl-with-teh-dragon-tattoo-by-marcelographics/

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