re.verb

cultura, crítica e tudo o mais

Pedaço de Céu

em fevereiro 16, 2012

De nada adianta esconder que ela é, para mim, a mais interessante das cantoras brasileiras recentes. Não tem a potência de Karina Buhr, tampouco a fofurice de Tulipa Ruiz e Tiê, mas mostra, como poucas, a reverência ao som agradável – e isso não é pouco. Ela é Céu.

E Céu não é música para o esquenta da balada; não é o melhor som para empolgar uma aula de bike… é música em si só; música para se ouvir.

Há poucos dias, lançou seu  mais recente álbum, Caravana Sereia Bloom (sim, este é o nome; nonsense e delicado assim).

Falando em maluquices (no melhor dos sentidos), a faixa que abre o disco, “Falta de Ar”, é basicamente a seqüência de “Espaçonave”, o fecho de seu último álbum, Vagarosa. Se, na última, Céu propunha “voltar pra nave-mãe, pra despressurizar”, agora critica delicadamente o crescimento desenfreado do mundo e desabafa “esse papo que gira aí, que o mundo tem que crescer, cresci até tocar a lua e em marte eu vou descer/ Mesmo que eu tenha criado um traje especial, que me permita viagens em modo espacial…ainda não vou, foguete é osso (…)”.

Falando, então, de amor – algo que ela faz tão bem – “Amor de Antigos” exemplifica como Céu é capaz de criar música brasileira para o mundo: o som é inclassificável – flerta com rock antigo e ritmos latinos, sem deixar de lado elementos do jazz e barulhinhos eletrônicos – lançando mão, ao mesmo tempo, de letras que refletem sua habilidade em transformar seu apreço pela língua falada em música: “nhonhô bebeu um gole de cada poro meu, e feito vinho de caju amarrei-lhe a boca” (não é lindo?).

Nesta toada, lembro-me de Céu falando, em vários dos shows a que assisti, sobre seu fascínio pelo coloquial, pelas expressões locais (como na gostosa “Bubuia” de seu último álbum). Céu é popular por ser acessível, não por ser simplória.

“Retrovisor”, a primeira música divulgada, remete mais explicitamente ao clima que permeou a elaboração do álbum: a estrada – daí a presença de influências ainda mais diversas, além dos já familiares jazz, reggae e MPB. Naquela faixa, os vocais, um tanto distantes, quase opacos, remetem à imagem de uma Céu no carro, com os vidros abertos, cabelos ao vento, cantando “pois não pense que isso vai ficar assim, meu batom vermelho vai me enfeitar, não preciso do espelho do retrovisor pra não borrar”.

Dentro dessa miscelânea boa, há também um grande clássico “Palhaço”, de Nelson Cavaquinho, e faixas pequeninas – “vinhetas”, como ela chama esses “flashes musicais” – como “Sereia”, que tem menos de um minuto e é tão bonita…um canto da sereia no mar, oscilante, com barulho de ondas indo e vindo, de lá para cá. Nas palavras da moça, tais pedacinhos “seriam como um rascunho. Queria mostrar como as músicas vão se formando, aproximar as pessoas do processo criativo”.

Céu tem o raro dom de acertar na dose: ser delicada sem ser menininha; de ser sofisticada, porém simples. Veja o exemplo de seu mergulho no rock – ritmo mais presente do que nunca – de “Baile da Ilusão”: ali, tangencia a cafonice, mas ainda assim é finíssima: “me colori para lembrar o que vivi, me colori para contar o que chorei (…)meu coração em preto e branco hoje quer se rebelar”.

A última faixa, “Chegar em Mim” é uma bênção para os ouvidos. (Sem exagero, é a melhor música que ouvi até agora em 2012.) A forma como a voz doce que canta a letra – doce, direta – se embrenha em meio às guitarras, ritmando cada palavra, é um bálsamo: “acendendo no meu peito, a fagulha dando um jeito, que o coração sempre pediu. Eu me enfeito nesse ensejo e atiço o teu desejo, perfume chega pra dizer (…) se eu fosse você, já tinha chegado em mim”.

É, enfim, um álbum daqueles de aquecer o coração, tamanha sua graça. Falar o quê mais? Talvez isso baste: ah, Céu, obrigada.

Anúncios

7 respostas para “Pedaço de Céu

  1. gcgarcia disse:

    Perfeito.

  2. Julio Melo disse:

    A Céu me deixaria nas nuvens… (ela é linda).

    Eu ouvia a Céu numa rádio de MPB aqui do RJ, mas não ligava a música à pessoa. Até que um dia uma amiga da faculdade pediu para eu baixar o cd da dela. Eu ainda não a conhecia (a cantora), minha amiga escreveu num papel o nome da cantora e o nome de uma música que era “Malemolência”.

    Depois que eu baixei eu ouvi uma ou duas vezes e confesso que a achei uma “versão inferior” da Vanessa da Matta, não sei porque fiz tal comparação. Depois disso não ouvi mais, o cd ainda está no meu computador…

    E já que falei em Vanessa da Mata: depois que ela ficou “pop” acabou o meu encanto.

    • Flora disse:

      Olá, Julio. Ainda bem que há opiniões divergentes neste mundo!
      Neste sentido, acho Céu e Vanessa da Matta muito distintas musicalmente; tanto em relação às referências e alusões na música de cada uma delas (do ponto de vista de sonoridade e de letras), quanto à geração a que cada qual pertence.

  3. Julio Melo disse:

    Gostaria de compartilhar um texto com vocês:

    Carnaval
    Não vou escrever sobre “quando o carnaval chegar”
    E nem sobre “comemorar como idiotas a cada fevereiro e feriado”
    Muito menos sobre que “o Pierrot apaixonado chora pelo amor da Colombina”
    Nem falarei que “é sempre carnaval no Brasil”.
    Não falarei em “brincar o carnaval, viver uma fantasia real”
    Não direi “vou beijar-te agora, não me leve a mal: hoje é carnaval”
    Nem “de um lado esse carnaval, de outro a fome total”
    Também não analisarei “tudo vai bem, tudo legal, cerveja, samba, e amanhã, seu Zé, se acabarem com o teu carnaval?”
    Nem que “o carnaval era festa do povo”
    Nem “deixa o verão pra mais tarde”
    Nem sobre “um sonho de carnaval”
    Nem que “todo mundo te conhece ao longe pelo som dos seus tamborins, e o rufar do seu tambor”
    Não poderei dizer “porém! ai porém! há um caso diferente que marcou num breve tempo, meu coração para sempre era dia de Carnaval”
    E nem que “todo carnaval tem seu fim”.

    (relembrando os tempos de blogueiro).

  4. […] foi diferente o show de ontem, ocasião do lançamento do excelente álbum Caravana Sereia Bloom (de que já falamos – muito bem – aqui), no Sesc Vila Mariana. Como sempre, foi um show sem grandes pirotecnias, mas tecnicamente […]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: