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Passionball

em fevereiro 21, 2012

O gosto pelo esporte pode ter inúmeras causas e explicações. Das mais simples, como a empatia por alguém – ou por um time – às mais elaboradas, como a projeção das angústias individuais no(s) atleta(s) e a conseqüente catarse pessoal pela vitória alheia.

Seja qual for a razão, a admiração pelo esporte é algo tão intenso, e comum, que tem o condão de aproximar pessoas, independente de sua idade, classe social – tem assunto melhor para puxar papo do que o resultado do jogo de ontem? – e é uma fonte inesgotável de piadas.

Dessa forma, tamanha sua penetração no dia-a-dia de tantas pessoas (no Brasil, quase todos os dias são dias de futebol; seja dias de jogos, ou dias de repercussão dos resultados), não é de se espantar que o esporte seja também um excelente negócio; uma indústria que move trilhões ao redor do mundo.

Considerando os pontos acima, contudo, para profissionais do esporte não é fácil deixar de misturar negócios com prazer; dissociar trabalho de emoção. É este o grande dilema de Billy Beane (interpretado com maestria por Brad Pitt, indicado ao Oscar de melhor ator), protagonista de “O Homem que mudou o jogo” (“Moneyball“), de Bennett Miller.

O filme se baseia na história verídica de um ex-jogador da Major League de baseball nos EUA que, tendo visto sua promissora carreira desandar, rapidamente foi para os bastidores e se tornou um dos managers de um dos menores dentre os maiores clubes da primeira divisão daquele esporte, o Oakland A’s.

Após alguns anos de resultados medianos, Barry se vê pressionado a melhorar o rendimento do time. O problemão com que se depara, contudo, é: com um orçamento ínfimo se comparado ao dos grandes times, e em um mercado no qual os jogadores mais renomados são vendidos a preço de ouro, como montar um time de qualidade, competitivo e capaz de efetivamente lutar pelo campeonato?

Sua estratégia? Mudar de estratégia.

Assim, ao invés de entrar na briga por jogadores famosos, resolve apostar na tese de um jovem e desengonçado economista de Yale, Peter Brand (Jonah Hill, também na briga pelo Oscar, como melhor ator coadjuvante), que, com base em uma extensa análise estatística dos jogadores (“sabermetrics”), avalia que tão importante como a correlação entre número de vitórias e runs – o que normalmente é feito – é a relação entre aquelas e as corridas até as bases. (Não se preocupe, ninguém precisa entender muito de baseball para gostar do filme.)

Dessa forma, de acordo com seu argumento, haveria, no mercado, inúmeros jogadores valiosíssimos, mas subestimados (em outras palavras, baratos).

Esta seria a faceta “técnica” do filme – capaz, em si, de entreter apaixonados pelo esporte. Ainda mais interessante, contudo, é a dimensão humana subjacente.

Até então, Berry havia tentado amenizar através da frieza e racionalidade sua frustração pessoal com o fracasso de sua carreira como jogador profissional; depois de se transferir aos bastidores do esporte, jamais se permitiu a novamente sentir emoção pelo jogo – ele diz que quando você começa a se emocionar com o esporte, “that’s when you get hurt”. Neste sentido, para não se envolver, não conversa com jogadores (para ficar mais fácil na hora de os negociar), tampouco assiste a qualquer jogo.

Entretanto, ao se ver obrigado a apostar todas suas fichas em Peter e sua teoria heterodoxa – e, inversamente, conforme este se vê finalmente respeitado por alguém – ambos formam uma dupla (um time) inseparável. Barry, aos poucos, amolece (por exemplo, conforme passa a interagir com os jogadores, se permite sentir novamente o campo e correr ali – e não mais na solidão de uma academia vazia, em plena hora de jogo) e novos sentimentos passam a transbordar da tela.

O filme, ressalta-se, emociona sem ser piegas; assim como o esporte. Este é capaz de trazer inúmeras alegrias e lágrimas de felicidade, mas é também injusto, imediatista e irracional; alguém passa de herói a vilão no espaço de tempo de um intervalo – ou menos.

Aquele, retrata como poucos todas essas facetas e, seja para os fãs de esporte, ou para os fãs de cinema, vale muitos pontos.

(“O Homem que mudou o jogo“, “Moneyball“, de Bennett Miller, 2011)

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Uma resposta para “Passionball

  1. Julio Melo disse:

    Os 3 primeiros parágrafos já valeram o post, é uma amostragem fiel do que o esporte (futebol) representa para o povo brasileiro.

    Lendo sobre esse filme lembrei de Jerry Maguire – a grande virada. (pode não ter nada a ver um filme com outro).

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