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Bom pra cachorro

em março 7, 2012

Estranhamente, às vezes nos esquecemos do óbvio: de como um fim de semana com amigos relaxa, do quanto comidas gostosas alimentam a alma, de que beijar muito na boca faz bem. Cada vez mais, esquecemo-nos também do quanto a boa música pressupõe letras e músicas feitas com carinho.

Acostumamo-nos a deixar pra lá a reverência à qualidade, a ode à canção, em prol de ritmos dançantes, refrões pegajosos e letras banais – particularmente, tenho muita preguiça das discussões que argumentam a favor do fim da canção; a canção não acabou, ela só é cada vez mais rara… mas isso não vem ao caso.

De fato, muitos artistas subestimam o ouvinte, pregando que o popular é incompatível com complexidade de sons e letras; que temas contemporâneos se casam apenas com superficialidade. (Uma pena.)

Por essas e outras razões, ouvir 5 a Seco (finalmente em CD, ao vivo, no Auditório do Ibirapuera) não apenas é um alívio, como uma esperança. Garotos de vinte e poucos anos, em plena era digital, escolhem simplesmente resgatar a beleza; não andam pelo caminho mais fácil, mas por aquele em que acreditam: música boa independe de idade, mas pressupõe requinte no som e qualidade.

Poucos conseguem amarrar com tamanha precisão temas jovens, como um amor nascido da balada, com sonoridade sofisticada – “tá tudo bem, finjo que nem sei o seu nome, e nem quero saber, mas se pensei a semana inteira em te rever deve ser um acaso qualquer (…) tô querendo te conhecer, te vi na balada lá nos cafundó, tô querendo mais de você”, como em “Tatame” –; ou ainda música boa com expressões mundanas: “yes, we can! Suave na nave, sem vacilo nem vintém”, como em “Ou Não”. (Nesta última, inclusive, vemos um exemplo de seu diálogo com raízes da música brasileira “das antigas”, com a participação de Lenine nos vocais).

Aliás, se são credenciais de sucesso que farão você escutar esses meninos, ressalta-se que há também outras participações de peso, como Chico César (em “No Dia em que Você Chegou”) e Maria Gadú (“Em Paz”).

Posso até ser suspeita, já que acompanho e admiro esses garotos desde sempre – desde de os tempos do maravilhoso hit do meu querido Tó Brandileone, “Pra Você dar o Nome”:

Deixa pra lá, que de nada adianta esse papo de agora não dá, que eu te quero é agora e não posso nem vou te esperar, que esse lance de um tempo nunca funcionou pra nos dois.

Sempre que der, mande um sinal de vida de onde estiver desta vez, qualquer coisa que faça eu pensar que você está bem, ou deitada nos braços e um outro qualquer, que é melhor…

Do que sofrer de saudade de mim como tô de você, pode crer, que essa dor eu não quero pra ninguém no mundo, imagina só pra você

Quero é te ver dando volta no mundo indo atrás de você, sabe o quê, rezando pra um dia você se encontrar e perceber que o que falta em você sou eu

mas meu compromisso com o reverberar dos bons conteúdos não me permitiria aclamar algo que não achasse digno de aplausos. E, não se engane, 5 a Seco merece mais do que uma salva de palmas; é, na minha opinião, o que de melhor há na música brasileira atual; simples assim.

A quem duvide, desafio a escutar e baixar (de grátis) o álbum, aqui. Garanto que vale a pena – e, para aqueles que já os conhecem, re-transmito a notícia de que, finalmente, é chegada a hora de carregar os meninos em nossos respectivos iPods.

Afinal, musica boa é aquela que, de tão boa, te faz dar “Gargalhadas”, ou, melhor ainda, ficar “Feliz Pra Cachorro”:

desde que te vi, que o chão não tem fundo, que o céu não tem forro, cantarolo e morro de rir (…)

Pensa num cara que anda contente pra burro, mas pensa um burro contente que nem um sagüi, desde que te vi (…)

Todo contente que nem são os gols de chaleira, a zaga inteira batida e o goleiro no chão, desde que te vi, não tem enjoeira, nem segunda-feira, ou canseira no meu coração.

Tão raro de se ver, param pra dizer para eu ser feliz pra lá, peraí, o que é que há, quero ver quem vai me impedir de sorrir do Pari até o Pará”.

5 a Seco faz isso; te satisfaz com boa música e te faz sorrir. Precisa mais?

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