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Habemus Metus

em março 29, 2012

E quem nunca se sentiu como este papa, interpretado de forma comovente por Michel Piccoli, na surpreendente produção franco-italiana “Habemus Papam?”, de Nanni Moretti.

Cidade do Vaticano. Após a morte do carismático papa João Paulo II, 108 cardeais designados para eleger o novo pontífice rumam para a Capela Sistina, para dar início a um dos mais misteriosos rituais do catolicismo: o conclave, cerimônia realizada a sete chaves e que culmina, obrigatoriamente, na nomeação de um sucessor para o posto máximo de liderança da Igreja.

Após sucessivos jatos de fumaça preta – indicando que a escolha continua incerta – e muitas discussões entre os cardeais, o telespectador presencia uma votação que, apesar de mexer com a vaidade de 108 seres humanos, parece representar um grande fardo aos potenciais candidatos. As preces silenciosas de cada indicado clamam pela escolha de um papa que não seja ele próprio, e pela isenção daquela responsabilidade que, pensam, está acima de suas vocações e abaixo de seus anseios. Os cardeais escolhem, então, o idoso francês Melville para dar início ao novo pontificado que, assim como os demais, não se sentia a altura daquela missão.

Como, afinal, aquele que deveria honrar os valores de humildade e simplicidade, poderia se convencer, por uma eleição, de que seria o melhor qualificado para representar o elo entre Deus e seu povo? Mais ainda, liderar este povo pelo caminho de Deus?

Traçando um paralelo com a nossa vida cotidiana, quem não se sentiu, por vezes, desafiado por uma nova missão e encheu o peito para encará-la, usando uma coragem que nem sequer sonhava deter? Quem nunca, nem por um tempinho, pensou em recuar ou sentiu-se incapaz de suportar algum fardo? Ou, ainda, quem sofreu a angústia de não ter recuado enquanto era tempo de resguardar sua própria paz?

Após a eleição, Melville sente o peso de sua responsabilidade e, ao se aproximar da varanda da Basilica di San Pietro, diante de milhões de fiéis, onde o mais velho dos cardeais leria o texto (habemus papam) anunciando o novo pontífice e marcando o início de um novo papado, nosso protagonista, sentado e acuado como se fosse a última presa do mundo, leva as mãos à cabeça, desmontado diante de sua obrigação. Então, grita. Mas grita de uma forma tão comovente e desesperadora, que, por um momento, esquecemos que estamos diante de um cardeal idoso e sereno, que, como faz crer a personagem, dedicou a maior parte de sua vida à sua vocação e à devoção a Deus.

É neste contexto que os 107 cardeais eleitores, aguardando esperançosos a recuperação do papa e preocupados com a angústia dos fiéis diante da indefinição do papado, designam um psicanalista para decifrar a crise de pânico que assola o Vaticano. No meio tempo, os cardeais se entregam a jogos infantis para correr com as horas; então, percebemos que há naqueles homens sentimentos comuns a todos os demais, como inveja, competitividade, preguiça e noites mal dormidas – carregadas de ansiolíticos.

Não obstante, apesar de brilhante em vários aspectos, principalmente dos pontos de vista dramático e ideológico, são visíveis algumas inconsistências no roteiro e na condução das personagens secundárias. O psicólogo (interpretado curiosamente pelo diretor Nanni Moretti) ao ser colocado de lado na missão de analisar o papa, passa a organizar um torneio de vôlei entre os cardeais. Ocorre que, apesar de proporcionar seqüências bem humoradas e que trazem leveza ao drama do papa perdido, o torneio não tem qualquer relevância para o longa, e deixa evidente a perda de rumo da personagem do psiquiatra, que tinha grande potencial no início.

Por outro lado, o que poderia ser um temor passageiro de um ancião confuso, toma proporções patológicas impensáveis. O papa foge, vagando pelas ruas de Roma e, distante do Vaticano e de seus companheiros de batina, acaba buscando o sentido de sua própria vida em meio à sua confusão mental. É nesta sequência de cenas que o brilhantismo de Piccoli consegue tocar o espectador de forma ainda mais profunda, ao dar vida a uma personagem tão humana e frágil que emociona por sua complexidade.

Tendo em mente um cardeal, que chegou ao estágio máximo de sua vida religiosa, mas está vagando absorto em pensamentos pelas ruas da capital italiana, respondamos a seguinte pergunta: quem de nós, de tempos em tempos, não precisa mudar de rumo? Sair de cena, vagando pelas ruas da sua própria vida, encontrando o seu mundo em outro lugar?

Não vou contar aqui o final do filme, esperando que a sua curiosidade o carregue pelas reflexões que “Habemus Papam pode proporcionar.

É evidente que muito se espera de um papa, como líder religioso e como ser humano. Da mesma forma, mas talvez em menor proporção, muito é esperado de nós também, em nossos trabalhos, em nossos relacionamentos, em nossos estudos. Grande parte deste “muito” conseguimos corresponder diariamente, com dedicação, com esforço e abrindo mão de alguns de nossos desejos.

Mas e aquilo ao que não conseguimos corresponder? Melville pode ser considerado um fraco por resistir à missão que lhe foi confiada, mas não há, de fato, coragem naquele coração que assumiu sua própria fraqueza e seguiu o rumo das suas próprias crenças?

(Habemus Papam, de Nanni Moretti, 2011)

 


 
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3 respostas para “Habemus Metus

  1. NatyH disse:

    Adorei a sinopse adriana , vou ver o filme e comento aqui o que encontrei.

  2. Monica Regatieri disse:

    Impressionante como me identifiquei….

  3. Danilo Soares disse:

    Gostei bastante da sua visão do filme, bem ampla!
    As comparações com a vida real então, ótimas.

    E creio que essa mudança deve ocorrer mesmo, porque quando a vida segue uma sequência diária e eterna, as coisas tendem a ficar tão cansativas quanto uma correia daquelas máquina de lavar antigas. Chega uma hora em que, ou você troca a correia (o ciclo diário) ou ela rompe. Cabe a nós enxergarmos em que estado está nossa “correia vivencial” 🙂

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