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Para pensar

em abril 17, 2012

Assistir a um filme é interpretar, cada espectador à sua maneira, o que é retratado na tela.

O ato de interpretar, por sua vez, foi teorizado e estudado por muitos mas, talvez, exercitado em sua melhor forma por estudiosos da psicologia humana.

Por isso, assistir a um filme que retrata justamente os bastidores daqueles que primeiro se dispuseram a destrinchar a psique humana (ao menos como hoje a entendemos) pode ser algo tão capcioso – para não dizer metalinguístico…

Indo além, fazer uma obra de arte – sujeita à interpretação individual de cada um, portanto – sobre os pais da psicanálise é algo em si ambicioso. E assim o fez David Cronenberg, em “Um Método Perigoso (“A Dangerous Method”).

Ali, o que se retrata é face mais humana – e, portanto, complexa – daqueles que entendem pessoas tão bem.

Mais precisamente, é a psicanálise – “the talking cure” – o pano de fundo para um enredo de paixão, desilusão e competição entre alguns dos mais ilustres conhecedores dos meandros do inconsciente humano: Karl Jung (Michael Fassbender), Sigmund Freud (Viggo Mortensen), Sabina Spielrein (Keira Knightley) e Otto Gross (Vincent Cassel).

Sabina é, a um só tempo, a paciente e a cura de Jung; nela, ele aplica, com sucesso, o método da cura pela fala – preconizado por Freud – e, também, vê as limitações de tal teoria – por experiência própria.

Ela, jovem russa judia, que surge como uma doente quase desenganada – “I’m vile, filthy and corrupt”  – experimenta (melhora) e aprende, como poucas, o método aplicado por Jung.

Este, por sua vez, a princípio é apenas um discípulo de Freud. À medida que aplica o método, entretanto, passa a questionar determinados aspectos – especialmente a sexualidade como a origem de todos os males – e, assim que conhece o inconvencional Otto Gross (quem, a um só tempo, é paciente de clínica psiquiátrica e doutor), vê alguns de seus dogmas cairem por terra.

Gross pregava que “our job is to make our patients capable of freedom“, independente do custo de tal liberdade.

Jung foi momentaneamente levado por tal crença, se libertou de antigos paradigmas e foi além: passou a crer no que não pensava ainda – telepatia, poligamia, etc. Se Freud foi a base, Otto foi a liberdade para Jung.

Mas, quando a tal liberdade mostrou horizontes incertos e perigosos (como ter um affair com sua paciente-modelo), foi a Freud que recorreu novamente – este, raramente se portando como amigo, antes como mentor, mas quem jamais deixou de ensinar, e provocar questionamento em seus nobres discípulos.

O interessante é que foi justamente o desvio de Jung que o fez um ser humano mais completo; ou, se preferir, simplesmente mais humano.

A partir de suas próprias fraquezas, foi capaz de enxergar melhor os outros – ou assim prega o filme.

Apesar da dificuldade do tema, e do risco de se lidar com o retrato – nada imaculado – de personagens tão conhecidas, é um bom filme, seja para leigos nas “ciências” da psicanálise, ou curiosos.

No limite, instiga-nos a pensar. Não é essa a essência da psicanálise?

(“Um Método Perigoso”, A Dangerous Method”, de David Cronenberg, 2011)

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