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O passar do tempo – como música

em abril 23, 2012

É uma narrativa frenética. Um sucessão de acontecimentos, aparentemente desconexos; mais parece um colar de contas, no qual cada pedrinha é solitariamente bonita por si só. Mas, não, é mais.

Aos poucos, as narrativas (e personagens) vão se encaixando – cada novo capítulo apresenta uma relação, ainda que tangencial, com o anterior.

É, portanto, um conjunto precioso de capítulos que se encadeiam como miçangas coloridas em um cordão; é um retrato da contemporaneidade que tem como fios condutores o passar do tempo e a música – precisa mais?

Falo do grande livro A Visita Cruel do Tempo, de Jennifer Egan (Editora Intrínseca) – vencedor do Pulitzer de 2011.

Ali, o que se tem é uma concatenação desenfreada de histórias de personagens que, mesmo tendo alguma relação entre si – por vezes tão irrelevantes como aquelas que, dizem, temos todos nós usuários do facebook – remetem a algo maior, na medida em que se dispõem sobre um pano de fundo comum: o inexorável passar do tempo.

É como se a música, com sua intrínseca sucessão de notas e intervalos, representasse a vida: em ambas, o passar do tempo é a um só tempo inevitável e essencial para a evolução da história – ou do som.

Ao longo dos 13 capítulos, sempre permeia uma certa nostalgia, deliciosamente aliada aos bons tempos em que rock’n’roll e displicência pareciam indispensáveis à vida de qualquer um.

Mais do que isso, A Visita Cruel do Tempo é ousado a ponto de nos oferecer cada capítulo como uma obra nova: seja na forma – que, por vezes, adquire uma lírica poética, com digressões e descrições demoradas; e em outras é puramente gráfica, esquemática, como no emblemático “capítulo power point” que é o 12, “Grandes pausas do rock and roll” – ou na perspectiva a partir da qual se constrói o argumento central: as narrativas passam da primeira pessoa (do singular e do plural), para a terceira, tão naturalmente como uma garota troca de roupa.

Em meio a todas essas pedrinhas coloridas concatenadas entre si, há cruéis reflexões sobre as sensações e consequências (perdas, inclusive) do passar do tempo, como em “Adeus, meu amor”, Capítulo 11:

Mas cada decepção que Ted sentia com relação à mulher, cada ínfima murchada, era acompanhada por um espasmo de culpa. Muitos anos antes, ele pegara a paixão que sentia por Susan e dobrara ao meio, para não ter mais aquela sensação impotente de quem se afogava sempre que a via deitada ao seu lado na cama (…) Depois a havia dobrado ao meio de novo para que, quando sentisse desejo por Susan, este não viesse mais acompanhado por um medo aflito de jamais conseguir se saciar. Depois ao meio outra vez, para que o fato de sentir desejo não viesse acompanhado de uma necessidade imediata de ação. E ficou tão pequeno que Ted podia guardá-lo dentro da escrivaninha ou de um bolso e esquecê-lo, e isso lhe dava uma sensação de segurança e realização, de ter desmantelado um aparato perigoso que poderia ter destruído a ambos.

Incansavelmente mais cruel é “De A a B” Capítulo 7, sintetiza a angústia de toda uma geração – a nossa:

Eles eram jovens, tinham sorte, tinham força – por que se preocupar? Se não gostassem do resultado, podiam voltar e recomeçar tudo de novo. E agora Bosco estava doente, mal conseguia andar, e planejava de maneira febril a própria morte. (…)

– Se você tivesse me perguntado hoje de manhã, eu teria dito que estávamos acabados – disse ele. – Todos nós, o país inteiro… porra, o mundo inteiro. Mas agora estou sentindo o contrário.

Stephanie sabia. Praticamente podia ouvir a esperança corer pelas veias do irmão.

Então, qual é a resposta? – indagou.

É claro que está tudo terminado – disse Jules. – Mas ainda não.”

(A Visita Cruel do Tempo, “A Visit From the Goon Squad”, de Jennifer Egan, Editora Intrínseca, 2011)

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